Roberto Carlos quase atrapalhou minha carreira como professora

Desde que me lembro na vida dou aulas. Primeiramente para os vizinhos do bairro – sempre havia alguém “pendurado” em notas, precisando de reforço. E todos já sabiam que a filha da dona Yara era estudiosa e dava aulas de casa. Sim, eu gostava de dar aulas, mas também era minha fonte de renda porque era jovem ainda, 14/15 anos, não tinha emprego e precisava ganhar dinheiro – geralmente é assim em famílias de origem humilde: assim que os filhos podem, sempre arrumam um jeito de ganhar um dinheirinho. E eu fazia milagres com o que ganhava. E gente pobre é honesta: nunca deixei de receber o trabalho feito.

Aos 15 anos entrei para o curso de formação de professores, na Escola Normal Carmela Dutra em Madureira. E continuei a dar minhas aulas no bairro de Bento Ribeiro, onde morava. Entretanto, quando ingressei na Faculdade de Letras da UFPE, aos 18 anos, fui logo convidada para dar aulas no curso noturno do Ginásio Nossa Senhora da Paz, que funcionava na Rua Tacaratu, 26, em Rocha Miranda[1].

nossa-senhora-da-paz_tacaratu

Fonte: https://www.facebook.com/Col%C3%A9gio-Nossa-Senhora-Da-Paz-798301836958497/

E foi lá que Roberto Carlos quase atrapalhou a minha vida profissional.

Fui convidada para dar aulas de Português, em uma época que isso significava lutar para que os alunos aprendessem conteúdos gramaticais, principalmente análise sintática. Era na década de 70 e, naquele momento, a concepção de linguagem que sustentava o ensino de língua portuguesa era a de que “linguagem é comunicação”[2], então os alunos estudavam conteúdo do tipo “emissor, mensagem, receptor, código” – a conhecida Teoria da Comunicação. Entretanto, embora se afirmasse a importância de se usar a língua em situações de comunicação, lembremo-nos que, no Brasil, estávamos em plena vigência do governo militar, com os órgãos de censura funcionando a pleno vapor – então, era uma “comunicação” que desconsiderava a finalidade do texto, o seu contexto de circulação, seus interlocutores, sua estrutura e linguagem adequada. O importante era mandar uma mensagem para que o receptor decodificasse… Só na década de 80, começou a aparecer uma nova concepção de linguagem como “inter-ação”, inspirada na teoria dos gêneros textuais. É dessa década a produção e divulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais em Língua Portuguesa (PCN), que passaram a orientar as atividades de ensino (e, a partir daí, também, aprendizagem) de língua portuguesa.

Então, na década de 70, a competência do professor de língua portuguesa era medida pelo seu domínio gramatical. E eu me lembro muito das aulas que tive que o professor Abraão, nos tempos do Carmela Dutra, em que ficávamos horas analisando as funções sintáticas dos versos d´”Os Lusíadas”, de Camões. Tenho certeza de que muitos colegas ficaram odiando Camões porque não tiveram a oportunidade que eu tive, na faculdade de letras, de cursar um semestre de Literatura Portuguesa para compreender não somente a importância da obra de Camões, mas de nossa herança literária portuguesa.

Considerando minhas experiências negativas nessa área de conteúdos gramaticais, quando assumi a turma da Escola Técnica, tentei fazer diferente como professora de Português. E, até hoje, agradeço a intuição de ter agido assim: em lugar de passar as aulas “brigando” para que meus alunos aprendessem (ou decorassem!) Gramática, investi na leitura, compreensão e interpretação de textos. Lamento não ter ainda, naquela época, a compreensão da importância em ampliar esse trabalho com as atividades de produção de texto[3]. Assim, eu já começara a definir outros rumos para minhas aulas, embora intuitivamente. Sabia que aqueles conteúdos gramaticais pouco ajudariam aos meus alunos – trabalhadores durante o dia e alunos no turno da noite – a melhorar suas competências como usuários da língua. Sabia, também, que essa minha decisão poderia custar tanto a demissão como críticas severas de “mudar” o conteúdo programático de português.

E que textos eu levava para a sala de aula? Todos que tratassem de tema interessante para os alunos, atualidades, e cuja linguagem não fosse complexa. Por isso, quando chegou a hora de elaborar a primeira prova da turma, não tive dúvidas em escolher o texto: uma letra de música famosa na época – “Detalhes”, de Roberto e Erasmo Carlos – e lançada em 1971 no álbum Roberto Carlos. Elaborei as questões de compreensão e interpretação; fiz a matriz da prova, que, na época era “rodada” no mimeógrafo a álcool, e fui convicta de que os alunos não teriam dificuldade em responder ao que eu pedia.

Mimeógrafo a álcool

mimeografo

Fonte: https://chamaescoteira.files.wordpress.com/2013/10/mimeografo.jpg, acesso em 29.05.2016.

Cheguei, entreguei a prova – constatei que, como acontecia naquela época, alguns alunos cheiravam o papel da prova por causa do álcool – e fiquei aguardando o final da aula. Não demorou muito para perceber que uma aluna estava com a cabeça baixa chorando. Sempre fui muito atenta para o emocional da sala de aula e, por isso, dirigi-me até a aluna para saber o que eu poderia fazer para ajudá-la. Ela explicou então que havia terminado um namoro e a música fazia com que ela sofresse ao lembrar do namorado. Perguntei se ela desejava sair um pouco, ir tomar uma água para acalmar o coração, mas ela disse que não era necessário.

Não demorou cinco minutos e a mesma situação se repetiu, agora com um aluno. E, para espanto meu, pude constatar que havia mais alunos e alunas chorando com a cabeça baixa. Motivo? “Não adianta nem tentar me esquecer, durante muito tempo em sua vida eu vou viver”.

Até hoje conto essa história, quando vou fazer alguma formação de professores na área de elaboração de itens de prova, ou quando estou dando aulas de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa, digo que agradeço a minha intuição na época: diante de tantas lágrimas, cancelei a prova, recolhi as folhas e marquei uma nova data de avaliação.

As muitas lições que aprendi esse evento, só mais tarde na minha formação profissional pude conferir teoricamente. Pude constatar, na prática, que um texto é muito mais do que a soma de palavras, que passam a ter significado a partir da ação do leitor, o sujeito que, ao estabelecer sua interação com o texto, constrói significados – nesse caso, resgatando experiências tristes vividas. Além disso, ao longo de minha trajetória como professora, cada vez que precisei escolher um texto para transformá-lo em material didático, considerava essa possibilidade de que meus leitores estabelecessem vínculos sentimentais com esse texto. Emoções que contribuem na leitura, interpretação e aprendizado em sala de aula.

Finalizando, Roberto e Erasmo Carlos quase atrapalharam minha trajetória profissional. E eles nem sabem disso… Se eu não escutasse minha “intuição pedagógica”, poderia ter ignorado as reações sentimentais de meus alunos, que passariam a ver o texto como um mero pretexto para a prova. Assim, mesmo que eu quisesse, não conseguiria esquecer essa experiência… Percebi naquele momento que, muitas vezes, são esses detalhes que compõem o perfil profissional de um professor. Eles podem ser pequenos, como os da música, mas, se bem incorporados, não vão sumir na longa estrada do tempo, mas durante muito e muito tempo em nossas vidas vão viver.

[1] Encontrei um grupo de ex-alunos desse colégio no Facebook – https://www.facebook.com/Col%C3%A9gio-Nossa-Senhora-Da-Paz-798301836958497/

[2] Para aprofundar essas concepções, é indicação obrigatória o livro que se tornou clássico na década de 80: GERALDI, J. W. O texto na sala de aula; leitura e produção. 2a ed. Cascavel, Assoeste, 1984

[3] As provas dos vestibulares da época eram de múltipla escolha e não havia a prova obrigatória de redação.

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s