Avaliação: salve-se quem quiser (puder) mudar…

(Este é um dos textos que escrevi enquanto professora no Colégio de Aplicação da UFPE)

Final de etapa.

Habituada a solicitar da sétima série, ao término de alguns trabalhos, a autoavaliação e admirando, feliz, a seriedade com que os alunos se dão nota, resolvi solicitar o mesmo da turma do terceiro ano do segundo Grau. Durante a etapa realizamos debates sobre temas escolhidos pela turma e registrados em redações, corrigidas através de códigos pré-estabelecidos e reescritas, com consulta a dicionários e gramáticas. Estas atividades foram apontadas, ao início da etapa, como pontos a considerar na avaliação da atividade de redação.

Pedi a autoavaliação aos alunos e, depois de muitos anos como professora, a atitude da turma conseguiu me deixar perplexa:

– Ynah, a gente não quer se dar nota não!

– Quem tem competência pra pôr nota é o professor.

– Ynah, quem sabe avaliar é você. Veja se eu fiz todas as tarefas e me dou nota 9 e meu colega não fez nada e também se dá nota 9, acho que fico prejudicado – meu nove é tão nove quanto dele!

Consegui ficar muda diante da turma (o que é raríssimo diante de minha fama de tagarela…). A sensação que senti era a de ocupar um espaço (na “cabeça” de meus alunos) que jamais eu poderia supor (nem nunca pensei em preencher). Alunos e eu falávamos língua diferente – eu os via ( e os julgava) através de um prisma; eles me viam (e me rotulavam) de forma diferente do que penso ser (ou estar sendo…).

Apesar de não ter vindo acompanhando, de outros anos, os alunos dessa turma, pelas referências de outros professores, pela participação da turma em momentos de decisão do Colégio e pelo nível de crítica que os alunos me apresentavam em aula, formei um perfil da turma e passei a interagir com os alunos a partir desse perfil.

Quando propus a autoavaliação, me vi, frente a frente, com a imagem que os alunos faziam de mim – e fiquei apavorada… Foi como se eu acordasse de manhã me olhasse no espelho e visse outra imagem que não a minha…

Saí da aula pensativa. Os alunos fecharam a conversa sobre a autoavaliação e não houve jogo de cintura que os fizesse discutir o assunto. O que seria avaliação? O que seria, para os alunos e para mim, avaliação? Teríamos o mesmo conceito? A partir de que pressupostos formei meu conceito de avaliação? E os alunos, quais seus pressupostos, como veem o avaliar? (se eles não quiseram nem discutir seus progressos e dificuldades – avaliar – será que esta atividade, no dia-a-dia deles tem outro nome? Ou será que, na vida, eles não avaliam suas atitudes?)

Busquei o conceito de avaliação no Aurélio. Entre sinônimos que lá encontrei, os verbos: “determinar a valia ou o valor”, “apreciar”, “reconhecer a grandeza”, “ajuizar”, etc… E fiquei assustada em assumir, sozinha, tanta responsabilidade creditada (imposta?) a mim, pelos alunos: “quem sabe avaliar é você”, “é o professor que tem competência (?) para dar nota…”

Quando e como recebi o monopólio de ser avaliadora? Quem tem o poder de me vestir tal “camisa de força”? Parece que a atitude dos meus alunos confirma que, na escola, “os papéis estão previamente determinados; o aluno cala, escuta, obedece, é julgado” (HARPER 1985, p. 48); “ o professor sabe, ordena, decide, julga, anota, pune” (idem, p.49). Mas, alguém disse isto aos alunos?

Nós, professores, lemos sobre métodos, técnicas etc. e tal; será que vivenciamos essas leituras na prática da sala de aula? (ou será que nosso discurso pedagógico e nossa prática são compartimentos estanques?) Se vivenciamos, como surgiu, em nosso aluno, a ideia de que quem sabe avaliar é o professor? Se ele pensa assim é porque tem vivenciado assim, no dia-a-dia escolar sob, a influência do professor… “Os professores têm dúvida, uma influência direta sobre os alunos, a partir de sua personalidade, sua atitude (…) Exata ação pode, aliás, exercer-se sem que o professor perceba” (HARPER, 1985, p. 68).

E o que dizer ao meu aluno que se preocupa se o seu nove é igual ao nove do colega?

Nossos alunos são bem espertos para cedo saberem e sentirem, na pele, um dos valores que a escola camufla – o “aprendizado de cada um por si” (HARPER,1985 p. 83) (e o professor contra todos). Meu aluno procura se virar como pode e imagina, repetindo fórmulas decoradas ou copiando-as do livro, do caderno ou de seu colega. E a escola estimula isto porque seu objetivo é “só promover aquela minoria de alunos que ela considera mais espertos e capazes de aprender” (?) (CECCON,1982, p. 73). Aliás, não poderia ser diferente (?) já que a escola faz parte dessa sociedade injusta e desigual.

Mas, nós – professores – somos a escola. E meu aluno, quando se nega a se autoavaliar, me põe cara a cara com a competição da vida – vence quem é o melhor (nos padrões que a gente bem conhece..). Quando ele me critica porque eu desejo levar em conta sua avaliação é como se ele me dissesse: o juiz da partida é você, não a gente … Nós jogamos; você aponta o campeão. Que história é essa de passar o apito pra gente…

E esse campeão, será o aluno mais crítico, mais questionador?

ABRAMOVITH (1985), no artigo “Tadinho do primeiro da classe”, começa a discorrer sobre as vantagens de ser o primeiro e prossegue questionando o eixo ensinar / aprender / avaliar. Ela afirma que “nesta imbecil maratona escolar, ganha quem chega em primeiro lugar, conforme as regras deste poder… E perde quem for capaz de duvidar, de questionar, de repropor, de reanalisar, de angular por outra ótica de inverter um raciocínio, de inventar uma nova solução…” (p.26).

Prossegue ela: “o aluno que se autoavalia, que é levado a ter um pensamento crítico permanentemente aguçado e atilado, se classifica como primeiro da classe? (Não, na minha experiência…)” (p.27) (nem na nossa, podemos completar…)

A autora propõe uma avaliação que inclua o julgamento do aluno; “ por que não acreditar na capacidade real de apreciação, de tirocínio, de julgamento dos alunos (de qualquer idade) e fazer com que se autoavaliem…? (p. 27)

Mas voltamos a minha proposta inicial à turma: a autoavaliação! Quero centrar meu ensino no aluno, mas ele se nega. O que fazer? Sei que ele tem seus motivos: há uma imagem de professor que me persegue (e é engraçado porque, no início da carreira, era eu quem perseguia o modelo ideal…). A imagem que os alunos têm, do professor, é muito poderosa e muito restrita, ao mesmo tempo. Um exemplo da limitação da imagem que os alunos têm do professor de Português, ocorreu comigo outro dia. Ao término  de uma aula expositiva de gramática, onde após questionamentos meus sobre o dogmatismo das noções que a gramática tradicional apresenta, ao final da aula uma aluna disse:

– Ynah, hoje eu gostei tanto da aula!

(O que, em outras palavras, jogava por terra todas as tentativas que eu fizera na aula (e vinha fazendo anteriormente) de levar os alunos a um posicionamento crítico em relação ao que lhes era apresentado).

HARPER (1985) indaga: “será que eles (professores) têm outra escolha individual além de submeter-se ou demitir-se?” (p.91)

Insistir ou desistir?

Ainda em HARPER, busco fechar meus questionamentos por ora. Nele, p. 100-103, ilustrações onde um sujeito constata que está tudo errado e que é preciso mudar; outro sujeito, então, lhe põe uma pedra na cabeça – o início da mudança – mas o peso é muito grande para um único indivíduo, ele cai, esmagado pela pedra, e pede socorro. Muitas pessoas correm em seu auxílio e, em grupo, conseguem partir a pedra, destruindo o “imutável”.

Termino, provisoriamente…

SOCORRO…

    • Publicado em Tópicos Educacionais. Centro de Educação, UFPE, v.5, nº 1/3.

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s