O desafio de ressurgir das folhas

Ainda sou do tempo em que muito do que se aprendia na escola era através da memorização. Tarefa sempre muito custosa para mim, que nem tinha muita competência para decorar, mas tinha de sobra curiosidade para querer sempre saber além do estabelecido. Muitas dessas coisas se foram com o passar dos anos, mas algumas ficaram para sempre.

Outro dia me peguei lembrando da famosa pergunta e respectiva resposta: “Em quantas partes se divide uma planta? Raiz, caule, folhas, frutos, flores e sementes”. Estudei em uma boa escola particular no subúrbio de Rocha Miranda, o Curso Almeida Mello, onde tínhamos jardim e pomar, lugares que seriam um excelente local para aprender esse assunto. Mas, pergunta e resposta foram decoradas sem referência alguma às atividades que fazíamos durante as aulas de jardinagem: o objetivo? Fazer prova de Ciências.

Ainda me lembro: cada parte tinha sua função. A raiz, além de sustentar a planta, é a responsável pela retirada de água e sais minerais do solo; o caule, responsável pela sustentação da planta e por levar a água e sais minerais da raiz para as outras partes dela; as folhas, responsáveis pela transpiração, alimentação e respiração das plantas. (Alguém sempre perguntava: e planta respira, é?). E as flores, minha paixão durante toda a vida, elas são as responsáveis pelos frutos e sementes, que fazem surgir novas plantas.

Apesar de amar flores e de ter aprendido, com meus pais, a não arrancar flores e a cuidar das plantas, preciso reconhecer que nunca fui boa nessa área agrícola. Até hoje, quase não sei nome de flores e jamais plantei uma árvore (embora já tenha escrito livros e sido mãe de uma linda filha). Fico encantada quando visito a casa da Silvana, uma amiga que sabe tudo de plantas e flores, e que tem um jardim maravilhoso.

De planta mesmo, nos dias de hoje, só consigo identificar algumas árvores frutíferas que havia no quintal da minha casa – mangueira, goiabeira e tamarineira. De flores, guardo um carinho especial pela “boca de leão”, que minha avó cultivava no quintal da minha infância, e a magnólia da casa da Angélica, minha vizinha e amiga até hoje: minha memória olfativa desse perfume me acompanha até hoje. E, por sorte, no percurso que faço a pé de casa para a academia de ginástica posso sentir esse perfume em uma das calçadas.

Claro que não incluo nessa incompetência agrícola minha experiência em plantar couves no quintal de casa. A razão aqui era outra: claro que minha mãe se aproveitava das folhas para fazer couve à mineira e seu famoso caldo verde, receita do tio Rubens. Mas o objetivo era criar borboletas. Era uma emoção imensa acompanhar seu ciclo de vida. Melhor ainda era poder vê-las sair do casulo, transformadas em lindas borboletas. Quando aprendi na escola a tal da metamorfose, já havia vivenciado a experiência muitas vezes.

Assumindo meus conhecimentos limitados nesse “letramento” agrícola, descobri outras funções para as folhas de uma planta. Isso graças aos conhecimentos de Luiz Higa, um amigo peruano, descendente de japoneses e marido da Helena, massoterapeuta e instrutor de Tai-chi. Ele me ensinou e eu aprendi (em vez de decorar!) que uma planta nova pode surgir de uma folha. Ele me mostrou a folha de uma Suculenta que, em contato com a terra, estava brotando para surgir uma nova planta. Parentes dos cactos, essas plantas têm esse nome porque possuem raiz, talos ou folhas gordas e cheias de líquido. Essa adaptação lhes permite manter reservas do líquido durante períodos prolongados, e sobreviver em ambientes áridos e secos que para as outras plantas seriam inabitáveis.

Suculenta

Fonte da imagem: http://www.jardinaria.com.br/blog/2010/06/especies-de-suculentas/ 

Desde esse dia em que vi uma nova vida nascendo de uma folha, fiquei refletindo sobre a capacidade de resiliência das suculentas, que nascem prontas para enfrentar condições climáticas adversas, principalmente a carência de água e o calor do sol. Fiquei, principalmente, pensando nessa capacidade de fazer brotar uma nova vida de uma folha.

Essas reflexões sobre a capacidade de renascer não devem estar acontecendo à toa. Afinal, em breve entraremos no período de Quaresma, os quarenta dias de jejum, orações e penitências que antecedem o domingo de Páscoa ou Domingo da Ressureição de Jesus. Ele, que triunfa da morte para proclamar o poder e a misericórdia de Deus, para nos chamar a participar de Sua vida. Quem sabe poderemos aproveitar esses quarenta dias para fazer como as as lagartas que eu criava com a plantação de couve – e chegarmos à Páscoa como lindas borboletas. Ou, quem sabe, possamos também aprender com as suculentas a acumular água e nutrientes em nossas raízes, caules e folhas para, como elas, conseguirmos resistir às intempéries da vida. Mas isso ainda é pouco, até porque a maioria do povo brasileiro já vem isso a vida toda.

Devemos aprender com as suculentas a irmos além disso. Oxalá possamos aprender a fazer brotar novas vidas em nossas folhas… Quem sabe possamos reinventar aquelas funções da folha de uma planta que a escola ensinou a partir do estabelecimento de um processo interior, ininterrupto e otimista de ressureição através da geração de novas vidas a partir de nossas folhas.

Ainda sou do tempo em que muito do que se aprendia na escola era através da memorização. Tarefa sempre muito custosa para mim, que nem tinha muita competência para decorar, mas tinha de sobra curiosidade para querer sempre saber além do estabelecido. Muitas dessas coisas se foram com o passar dos anos, mas algumas ficaram para sempre.

Outro dia me peguei lembrando da famosa pergunta e respectiva resposta: “Em quantas partes se divide uma planta? Raiz, caule, folhas, frutos, flores e sementes”. Estudei em uma boa escola particular no subúrbio de Rocha Miranda, o Curso Almeida Mello, onde tínhamos jardim e pomar, lugares que seriam um excelente local para aprender esse assunto. Mas, pergunta e resposta foram decoradas sem referência alguma às atividades que fazíamos durante as aulas de jardinagem: o objetivo? Fazer prova de Ciências.

Ainda me lembro: cada parte tinha sua função. A raiz, além de sustentar a planta, é a responsável pela retirada de água e sais minerais do solo; o caule, responsável pela sustentação da planta e por levar a água e sais minerais da raiz para as outras partes dela; as folhas, responsáveis pela transpiração, alimentação e respiração das plantas. (Alguém sempre perguntava: e planta respira, é?). E as flores, minha paixão durante toda a vida, elas são as responsáveis pelos frutos e sementes, que fazem surgir novas plantas.

Apesar de amar flores e de ter aprendido, com meus pais, a não arrancar flores e a cuidar das plantas, preciso reconhecer que nunca fui boa nessa área agrícola. Até hoje, quase não sei nome de flores e jamais plantei uma árvore (embora já tenha escrito livros e sido mãe de uma linda filha). Fico encantada quando visito a casa da Silvana, uma amiga que sabe tudo de plantas e flores, e que tem um jardim maravilhoso.

De planta mesmo, nos dias de hoje, só consigo identificar algumas árvores frutíferas que havia no quintal da minha casa – mangueira, goiabeira e tamarineira. De flores, guardo um carinho especial pela “boca de leão”, que minha avó cultivava no quintal da minha infância, e a magnólia da casa da Angélica, minha vizinha e amiga até hoje: minha memória olfativa desse perfume me acompanha até hoje. E, por sorte, no percurso que faço a pé de casa para a academia de ginástica posso sentir esse perfume em uma das calçadas.

Claro que não incluo nessa incompetência agrícola minha experiência em plantar couves no quintal de casa. A razão aqui era outra: claro que minha mãe se aproveitava das folhas para fazer couve à mineira e seu famoso caldo verde, receita do tio Rubens. Mas o objetivo era criar borboletas. Era uma emoção imensa acompanhar seu ciclo de vida. Melhor ainda era poder vê-las sair do casulo, transformadas em lindas borboletas. Quando aprendi na escola a tal da metamorfose, já havia vivenciado a experiência muitas vezes.

Assumindo meus conhecimentos limitados nesse “letramento” agrícola, descobri outras funções para as folhas de uma planta. Isso graças aos conhecimentos de Luiz Higa, um amigo peruano, descendente de japoneses e marido da Helena, massoterapeuta e instrutor de Tai-chi. Ele me ensinou e eu aprendi (em vez de decorar!) que uma planta nova pode surgir de uma folha. Ele me mostrou a folha de uma Suculenta que, em contato com a terra, estava brotando para surgir uma nova planta. Parentes dos cactos, essas plantas têm esse nome porque possuem raiz, talos ou folhas gordas e cheias de líquido. Essa adaptação lhes permite manter reservas do líquido durante períodos prolongados, e sobreviver em ambientes áridos e secos que para as outras plantas seriam inabitáveis.

Desde esse dia em que vi uma nova vida nascendo de uma folha, fiquei refletindo sobre a capacidade de resiliência das suculentas, que nascem prontas para enfrentar condições climáticas adversas, principalmente a carência de água e o calor do sol. Fiquei, principalmente, pensando nessa capacidade de fazer brotar uma nova vida de uma folha.

Essas reflexões sobre a capacidade de renascer não devem estar acontecendo à toa. Afinal, em breve entraremos no período de Quaresma, os quarenta dias de jejum, orações e penitências que antecedem o domingo de Páscoa ou Domingo da Ressureição de Jesus. Ele, que triunfa da morte para proclamar o poder e a misericórdia de Deus, para nos chamar a participar de Sua vida. Quem sabe poderemos aproveitar esses quarenta dias para fazer como as as lagartas que eu criava com a plantação de couve – e chegarmos à Páscoa como lindas borboletas. Ou, quem sabe, possamos também aprender com as suculentas a acumular água e nutrientes em nossas raízes, caules e folhas para, como elas, conseguirmos resistir às intempéries da vida. Mas isso ainda é pouco, até porque a maioria do povo brasileiro já vem isso a vida toda.

Devemos aprender com as suculentas a irmos além disso. Oxalá possamos aprender a fazer brotar novas vidas em nossas folhas… Quem sabe possamos reinventar aquelas funções da folha de uma planta que a escola ensinou a partir do estabelecimento de um processo interior, ininterrupto e otimista de ressurreição através da geração de novas vidas a partir de nossas folhas.

Texto publicado em: Varal do Brasil – revista eletrônica editada na Suíssa por Jacqueline Aisenman – http://varaldobrasil.ch/ – disponível em https://issuu.com/jacquelinebulosaisenman/docs/varal_pascoa_2016

 

 

 

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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