Carta para meu neto Bernardo no seu primeiro Natal

 

 

2015-12-21 18.35.53

Bernardo com um mês e quinze dias.

Recife, 24 de dezembro de 2015

Carta da vovó Ynah para Bernardo no seu primeiro Natal! (Para ser lida no futuro)

Amor da vovó!

Ao longo desses 10 meses sentei várias vezes para escrever sobre a emoção que tenho vivido desde que soube que você estava a caminho. Mas, sua vovó, que tão bem lida com palavras, ficou travada. E mesmo agora, nesta carta, é muito difícil encontrar as palavras certas para lhe dizer das emoções que tenho vivido desde então. Mas vamos lá!

Você está chegando agora neste mundo. Que não está lá muito amigável. São catástrofes naturais, provocadas pela ação desastrosa do ser humano; são catástrofes humanas, provocadas pela ganância pelo dinheiro e poder. Então, a mídia tem tido carniça diária para nos oferecer gratuitamente, instilando decepção e pessimismo através veículos de comunicação e redes sociais. Carniça que antes chegava apenas pelos jornais e televisão, agora chega sem pedir licença em nossos aparelhos celulares.

Entretanto, se isso pode parecer ruim para os pessimistas de plantão, para os otimistas como eu é prova de que o ser humano é gregário por natureza. Então, você está nascendo em um mundo cujas características principais são a interação e conectividade em tempo real. Em fração de segundos, qualquer evento pode chegar a qualquer lugar do mundo. Então, conceitos como tempo/tempo, que norteavam a vida dos seres humanos, foram recriados em um mundo cujas “barreiras” caíram por terra, um mundo que deixou de ser sólido para ser líquido. (Se você quiser saber mais sobre isso, não deixe de ler ou assistir a entrevistas de um lúcido sociólogo chamado Bauman. É dele um livro chamado “Modernidade líquida”).

Então, meu neto, você nasce em um mundo em transformações constantes e profundas. E eu não tenho como aconselhar você. Aliás, esse também nunca foi o perfil de sua avó. Nunca me senti dona da verdade. Já acertei e errei muito nesses 60 anos de vida, mas nunca deixei de tomar as rédeas da minha vida – há uma frase que diz muito sobre o estilo de vida que segui: é melhor arrepender-se do que fez do que passar a vida lamentando o que não fez e podia ter feito. Por isso, neste seu primeiro Natal, quando você tem apenas um mês de vida, pensei em registrar aqui algumas dicas que considero importantes na vida:

  1. Valorizar a família, principalmente quem nos trouxe ao mundo ou quem nos educou. Entretanto, nunca se julgar “devedor” nem jamais se submeter às chantagens do tipo “deixei de fazer muitas coisas por conta dos filhos”. Isso não existe. Se fazemos ou deixamos de fazer algo, e se acertamos ou erramos, a culpa ou o mérito é exclusivamente nosso. Acho uma grande sacanagem (ih! Vovó também fala palavrão! Kkkkk) usar esse tipo de comportamento para escravizar alguém junto de nós.
  2. Aprender que a grande vocação de nossas vidas é o aprendizado. Viemos a esse mundo para nos melhorarmos e isso só é possível através do conhecimento. E não estou limitando esse conhecimento aos bancos escolares. Nesse mundo, a grande sacada é descobrir todas as maneiras possíveis de articular as informações em conhecimentos. Acredito que as ferramentas tecnológicas devam estar a serviço disso. O tempo de se decorar deu espaço ao tempo de se articular.
  3. Descobrir que o maior sentimento de nossas vidas se chama gratidão. Devemos ser gratos pela vida que recebemos de Deus, e por todas as experiências que tivermos a oportunidade de viver. Sejam elas consideradas positivas ou negativas. Eu diria até que as negativas são as melhores porque são elas que nos dão a oportunidade de rever nosso rumo e reavaliar nossas decisões. Agradecer todas as oportunidades. Ser grato por poder vivê-las.
  4. Aceitar que o passado, como dizia um grande escritor chamado “Mário de Andrade”, é “lição para se refletir e não para se repetir”. Isso é muito importante. Lamentar o que aconteceu, é coisa para pessimistas. O otimista, quando olha para o passado, o faz para redirecionar sua vida para o futuro. Segundo um filósofo chamado “Mário Cortela”, basta comparar o tamanho do para-brisa e do retrovisor do carro. Como o objetivo maior de um carro é seguir em frente, o para-brisa é maior que o retrovisor, que deve servir apenas como orientação para que não percamos nosso rumo nem avancemos em espaços que não nos pertencem. Então, nada de apego ao passado. Nada de acumular ressentimentos e lixo no porão de nossas vidas. Faxinar sempre!
  5. Não se deixar levar pelo lugar comum de que só o dinheiro traz felicidade. Claro que não estou falsamente dizendo pra você que é feliz quem vive na miséria e pobreza. Claro que o ser humano precisa de condições dignas de vida – moradia, alimentação, saúde e educação de qualidade. Entretanto, ao longo da vida, conheci muitas pessoas ricas e completamente infelizes, que não viviam sem um remédio de tarja preta. E muitas até que ganhavam muito dinheiro e viviam devendo e reclamando que não tinham grana… Ao mesmo tempo, conheci muitas pessoas felizes em vidas simples. Um exemplo? Em um final de semana, passeie em um bairro pobre e compare esse passeio com uma caminhada na Avenida Boa Viagem, observando os prédios luxuosos. Procure descobrir em que lugar a sensação de alegria é maior? Eu fui criada em um subúrbio do Rio de Janeiro, na casa onde até hoje moram sua bisavó Yara e seu bisavô Raimundo. Até hoje quando visitamos o lugar é fácil perceber que há vida pulsando nas ruas e lojas do lugar. Claro, tem muita fofoca também, muita gente que vive cuidando da vida dos outros, mas as pessoas são mais solidárias com os vizinhos e o clima é de alegria. Para os ricos, isso é uma alegria brega… pode ser, mas acredito que é muito melhor do que a tristeza burguesa. Procure pautar sua vida pela felicidade e não pelo dinheiro. Se puder somar aos dois a alegria de viver, ótimo.
  6. Tente compreender a função que a Arte tem em nossas vidas. É com ela que enriquecemos nossas experiências de vida. Sem ela, sinto-me pobre. Não dê ouvidos a quem diz que quem gosta de poesia é mulherzinha… Esses seres não terão espaço na vida futura. Adoro artes plásticas, música, literatura e toda forma de manifestação artística. (Seu vovó Jorge Simas pode lhe explicar melhor essa importância. Ele é um grande instrumentista no violão 7 cordas. Pode procurar na internet que você vai ver como ele arrasa!) Então, querido Bernardo, não se descuide de sua formação artística – teatro, cinema, poesia e tudo o que desperta nossa sensibilidade. Eu tenho certeza de que não vai haver espaço para pessoas insensíveis no futuro. Competência profissional sim, mas, acima de tudo, competência no trato com as questões que dizem respeito à sensibilidade. E a arte é o caminho para isso. Quem sabe você vai herdar de seu pai e de seu vô Jorge o amor pelas cordas! Ficaremos muito felizes e daremos total apoio!
  7. E por fim, nunca se descuide da delicadeza nas relações pessoais. Dizer “por favor” e “obrigado” é prova de que você é educado. Sei que sua mamãe e seu papai vão lhe ensinar isso muito bem. Então quero acrescentar: essa gentileza não significa que você vai sempre abrir mão do seu jeito de ser para agradar aos outros. Não, de jeito algum. Não abra mão do que você acredita ser o comportamento certo para você. Claro que isso não significa egoísmo. Mas autenticidade. Claro, também, que podemos ser autênticos sem precisa magoar ou ser grosseiro com os outros. Tenha certeza que seus pais vão planejar um caminho correto para que você siga, mas isso não quer dizer que você vai precisar seguir do jeitinho que foi planejado. Converse sempre com eles a respeito do que eles pensam que é o melhor pra você e, caso você pense diferente, mostre o que você julga ser o melhor. Com certeza, o diálogo é uma ferramenta para as pessoas bem-sucedidas na vida. Quem não sabe dialogar, vai precisar impor sua opinião, e às vezes faz isso com violência: são os ditadores. O ser inteligente é capaz de ouvir, refletir, dialogar e encontrar sempre um caminho melhor sem precisar usar a violência ou a grosseria. Seja você, mas jamais deixe de ser gentil.
  8. Aprender a usar o bom senso. O que significa fechar a possibilidade de radicalizar a vida. O equilíbrio é o segredo de uma vida plena. Isso vale em todos os campos, na vida pessoal, profissional e, acima de tudo, no campo religioso. Você, Bernardo, está nascendo em uma família católica, o que não significa que você vai sempre seguir os dogmas dessa religião. Entretanto, a despeito de qualquer escolha que você faça, nunca duvide da importância da fé, não importa em qual dos credos ela se manifeste. Já diz Jesus, são vários os caminhos da morada do meu Pai. O importante é achar um caminho que lhe leve com equilíbrio – sem radicalismos – à tal morada.

 

Querido neto Bernardo de Souza Abejdid Lustosa, por fim, nunca se esqueça de que o verdadeiro sentido do Natal passa longe do verbo COMPRAR. Muito pelo contrário, esta é a data para se conjugar muitos outros verbos: rezar, amar, compartilhar, dividir, agradecer, entre outros.

Um beijo eterno dessa sua avó que NUNCA vai deixar de lhe amar.

 

 

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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