TODO BRASILEIRO É ESPECIALISTA EM ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA. SERÁ?

No Brasil é assim, todo mundo se sente competente para tecer comentários a respeito do ensino de língua portuguesa. Principalmente políticos. Já houve quem propusesse o fim dos estrangeirismos (Aldo Rebelo, 2007), a reforma ortográfica para “simplificar a língua portuguesa”- projeto proposto pelo professor Ernani Pimentel e acolhido para discussão no Senado. E, agora, o novo ministro da educação, o economista Aloizio Mercadante. Segundo matéria jornalística, ele critica o pouco conteúdo de gramática da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Elaborada por comissão de especialistas, sob a coordenação do MEC, essa base tem o objetivo de nortear o que será ensinado em todas as escolas de educação básica do país, por isso o documento estará até o dia 15 de dezembro de 2015 aberto ao debate público[1]. Segundo a matéria jornalística, a proposta de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental séries iniciais “praticamente não faz referências ao ensino de gramática”[2].

Antes de reportar-me ao documento propriamente dito, é preciso lembrar que não existe apenas uma definição de gramática, mas várias: onze, para Travaglia (1998); três para Possenti (1996) – normativas, descritivas e internalizadas. As normativas, um conjunto de regras que devem ser seguidas; as descritivas, isto é, um conjunto de regras que descrevem e/ou explicam as línguas tais como elas são faladas; e as internalizadas, conjunto de regras que o falante domina e se refere a hipóteses sobre os conhecimentos que habilitam o falante a produzir frases ou sequências de palavras como pertencendo a uma língua. Então, quando se emprega o termo “gramática” no espaço escolar, esse termo é empregado no sentido de gramática normativa.

Qual o modelo dessa gramática normativa? O pressuposto desse modelo é que para entender uma língua deve-se partir de suas unidades menores (fonemas e letras), passar para as sílabas e palavras, até chegar a frases, orações e períodos, que formam os significados. Basta consultar o índice das gramáticas para constatar isso: os conteúdos são distribuídos em partes – Fonética e Fonologia; Morfologia; Sintaxe; Semântica. Parte-se das menores unidades para as maiores unidades. E, infelizmente, tudo isso é repassado para os alunos de forma estanque, também, obrigando-os a decorar tudo. Levando-os a ter horror pelas aulas de língua portuguesa porque, para a grande parte dos alunos, elas significam gramática, gramática e gramática. Há uma preocupação em fazer cumprir um programa pré-estabelecido, mas que não leva em conta as dificuldades dos sujeitos envolvidos no processo nem o uso efetivo da língua numa situação de interação verbal.

Entretanto, esse ainda é um modelo que permanece na escola brasileira, apesar das propostas de ensino de língua inspiradas nas contribuições da linguística. No Brasil, grande parte dessas contribuições surgiu das pesquisas de um grupo de professores do Instituto de Estudos da Linguagem (Unicamp) liderados pelo professor João Wanderley Geraldi[3] na década de 80. O livro referência dessas propostas – “O texto na sala de aula” – reúne 12 artigos de vários linguistas que refletem sobre o ensino de língua portuguesa. Propostas que foram muito bem acolhidas pelos professores e, também, pelos documentos oficiais da época (PCNs).

O que propunham esses pesquisadores? Que o ensino de língua portuguesa fosse assentado na concepção de linguagem como forma de interação, e que, por isso, os alunos passassem a ser vistos como sujeitos de sua própria fala de sua escrita. Com isso, rompia-se com a tradição normativa gramatical, considerada historicamente como a forma correta de ensinar a língua a partir da imitação de modelos de texto escrito consagrados, em sua maioria de obras literárias dos séculos passados.

Para Geraldi, o ensino deveria se desenvolver em quatro eixos didáticos: leitura, oralidade, produção de textos escritos e análise linguística. Esta última um eixo transversal que perpassaria os outros três eixos, constituindo-se em uma prática fundamental para que os alunos aprendam a língua portuguesa refletindo sobre seus diversos usos.

A proposta para o ensino de língua portuguesa no Ensino Fundamental agora apresentada no documento da BNCC, amplia esses eixos quando defende que os objetivos de aprendizagem de Língua Portuguesa sejam organizados em cinco eixos: (1) apropriação do sistema de escrita alfabético/ortográfico e de tecnologias da escrita, (2) oralidade, (3) leitura, (4) escrita e (5) análise linguística, sendo este último transversal aos demais.

No ciclo de alfabetização, ganha destaque a compreensão e o domínio do sistema alfabético/ortográfico e, à medida que se avança na escolaridade, a reflexão linguística sobre os recursos linguísticos que envolvem as práticas de leitura, escrita e oralidade vai se aprofundando, a partir da análise de elementos presentes nos textos, incluindo aspectos relativos à normatividade em diferentes situações formais de uso da língua. Destacam-se, segundo essa perspectiva, a reflexão acerca da materialidade do texto (seleção lexical, recursos morfossintáticos, sinais gráficos, diagramação, dentre outros aspectos) e a apropriação de estratégias de exploração dos elementos constitutivos da textualidade (unidade e progressão temática, articulação entre partes, modos de composição tipológica, intertextualidade e polifonia, argumentatividade, planos enunciativos, relações entre recursos de coesão e coerência dentre outros. (BNCC, p. 38 )

Prossegue o documento afirmando que:

A abordagem de categorias gramaticais (fonética/fonológicas, morfológicas, sintáticas, morfossintáticas) e de convenções da escrita (concordância, regência, ortografia, pontuação, acentuação etc) deve vir a serviço da compreensão oral e escrita e da produção oral e escrita, e não o contrário. (BNCC, p. 39)

Então, será verdade que a proposta da Base Nacional Curricular disponibilizada para discussões é “fraca em conteúdos gramaticais”? Talvez sim, para quem acredita ser a gramática normativa da língua o melhor modelo para as aulas. Ainda bem que, se existem, são raros os professores de língua portuguesa que pensam dessa maneira. Esse modelo tradicional talvez explique a formação de leitores superficiais, que leem, mas não compreendem o que está escrito. Talvez a formação desse leitor superficial seja fruto desse ensino tradicional de língua portuguesa em que a tarefa dos professores era “despejar” conteúdos gramaticais para que os alunos decorassem as regras (e muitas exceções).

A definição de Bases Nacionais Curriculares é uma iniciativa importante. Cabe agora à comunidade ler, discutir, criticar e propor mudanças no documento divulgado. Sem debates não se pode avançar. Na década de 80 escrevi um texto que registra uma conversa parecida sobre a necessidade de se usar ou não o livro gramática. Usar ou não a gramática?

Recife, 12 de outubro de 2015

Referências teóricas

GERALDI, J. W. GERALDI, J. W. (org.). O texto na sala de aula. 4 ed. São Paulo: Ática, 2003.

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado de Letras, 1996.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 1998.

[1] http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/conheca

[2] Mercadante defende mais gramática no currículo nacional de educação. In:  http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/10/1692804-mercadante-defende-mais-gramatica-no-curriculo-nacional-de-educacao.shtml?cmpid=compfb

[3] Vale a pena consultar a entrevista do professor em https://www.escrevendoofuturo.org.br/conteudo/biblioteca/entrevistas/artigo/1370/entrevista-joao-wanderley-geraldi

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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3 respostas para TODO BRASILEIRO É ESPECIALISTA EM ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA. SERÁ?

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  2. Vânia Alves Gomes disse:

    Muito lúcida sua abordagem, Ynah.
    Ao longo da história, o ensino de Língua Portuguesa tem seguido a modalidade normativa, seccionando a aprendizagem, como se as categorias e os mecanismos fossem dissociação. Esse engano tem produzido incapacitados leitores de textos, de vida.
    Nós, que lidamos com a situação diariamente, sempre buscamos alternativas que corrijam ou ao menos minimizem os prejuízos gerados.
    Enquanto a educação for gerida por não educadores, os equívocos continuarão a acontecer.
    A conta por essa irresponsabilidade é alta: analfabetismo funcional, desqualificação profissional, alienação civil e política.
    Não basta banir o analfabetismo das estatísticas; urge bani-lo da realidade de nossas crianças e nossos jovens.
    Nós, os educadores, aqueles que pensam e vivem a educação – particularmente os professores de Língua Portuguesa – temos por obrigação divulgar e discutir as propostas.
    Sem comodismo. A hora é agora.

    Quem sou eu: professora de Língua Portuguesa e Literatura, oriunda da rede pública de ensino e diplomada pela UFRJ,
    atuante na rede privada por 17 anos, ainda
    trabalhando na rede pública estadual há 31 anos, ex-diretora adjunta, eterna aprendiz.

  3. Márcia Socorro de Assis disse:

    Muito oportuna o posicionamento da colega professora, comungo de suas concepções, acredito nos teóricos embasados que embasaram sua reflexão e acrescento que enquanto nós docentes não adaptarmos a metodologia a realidade da turma, os conteúdos não farão sentido para a vida dos alunos.
    A gramática é viva, interativa. Apenas ensinar regras não faz diferença no processo de ensino aprendizagem dos educandos/educadores.
    Marabá/Pará, 14 de outubro de 2015.

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