O aluno desarrumado; sobre a adoção ou não de gramática nas aulas de Língua Portuguesa

O ALUNO DESARRUMADO; sobre a adoção ou não de gramática nas aulas de Língua Portuguesa [1]

YNAH DE SOUZA NASCIMENTO (UFPE)

Resumo: Duas conversas mantidas entre professor e pais de alunos durante uma reunião de entrega de notas na escola. Nos dois momentos o assunto é o mesmo: a utilização ou não de livro didático nas aulas de Português. Como explicar a um pai que sua filha não precisa decorar regras – ela pode descobri-las a partir do uso, falado ou escrito da língua. Como explicar ao pai e à mãe de um aluno de doze anos que a desorganização desse aluno não é consequência da falta de um livro didático de Português, mas sim uma tentativa de estabelecer sua própria identidade.

Treze horas.

A responsável pela disciplina avisa que os pais estão me aguardando na sala da sexta-série: reunião de pais.

Supervisora da 6ª série B, preenchendo fichas, fazendo Conselhos de Classe, ouvindo reivindicações dos alunos, reclamações dos professores (A turma está impossível!).

Agora, para completar – os pais.

Saio de uma reunião que começara às 11 horas. Tenho tudo o que não gostaria: fome, sede, vontade de ir ao banheiro. Mas, lá vou eu ouvir os pais dos alunos.

Você pode me explicar uma coisa? Antigamente, quando eu estudava português, a gente tinha que usar um livro bem grosso – a gramática. O professor dava todas aquelas regras e a gente tinha que decorar pra usar na prova. Você não faz assim? Preciso comprar uma gramática pra minha filha?

            E eu, ouvindo a dúvida (a cobrança?), lembrando que também estudara assim; aos poucos, mas em fração de segundos, sentia e compartilhava com aquele pai – colega da Universidade – a frustração que tínhamos nas aulas de Português. Com ele, me identificava, mas me diferenciava: tinha descoberto outro caminho…

Você gostava de estudar português? — Devolvi-lhe a pergunta.

Detestava e até hoje tenho traumas daquelas famosas regras, e da análise sintática, nem se fala.

            Pois sua filha gosta das aulas de Português. Você sabe por quê?

            Bom, algo deve ter mudado. Não entendo como ela escreve bem sem decorar as regras…

            Quando você fala, escreve, fica lembrando regras? E as crianças pequenas?

            É verdade, nem lembro mais do que decorei…

            Agora, volto a sua pergunta inicial – ainda quer a resposta?

            Como os alunos conhecem as regras? Você sabe, nos concursos…

            E, com a observação desse pai, fiquei rindo daqueles professores que se julgam excelentes porque enchem a cabeça (e a paciência) dos alunos, com regras e mais regras — pensando que ensinam… Tive pena daqueles colegas que se ausentam das discussões sobre o papel social e político da escola, da educação, alegando não tenho nada com isso.

Sua filha não precisa conhecer as regras: ela descobre, a partir do uso, falado e escrito, que faz da língua. Ela não precisa decorá-las porque ela já as domina como falante da Língua Portuguesa.

O pai de minha aluna saiu sem dúvidas. Deixou um bocado delas comigo…

Outro atendimento.

Agora um pai e uma mãe de aluno.

Você não acha que, usando livro nas aulas, os alunos seriam mais organizados? Meu filho anda tão desarrumado

Vou ouvindo as observações, olhando as notas do aluno desarrumado, pensando…

Mas seu filho usa livro, aliás, ele gosta muito de ler os livros de literatura da Biblioteca de Classe.

            Eu falo é do livro didático.

            Mas eu uso material didático; seleciono o melhor que tenho, crio o que não tenho; os alunos guardam esse material numa pasta.

            Ah! Mas meu filho perde tudo. Se fosse o livro era mais fácil controlar.

Eis aí a palavra-chave — controlar — pensei imediatamente.

Seu filho está em recuperação em Matemática, Ciências, OSPB. Esses professores não usam livro didático?


 

            Usam, mas acho que meu filho não está preparado para uma escola liberal. Estou pensando em transferi-lo para um colégio lá perto de casa – eu conheço o diretor, os professores; fica mais fácil controlar.

E, de novo, a mesma palavra de antes: controlar.

A cada trecho que ouvia, a desarrumação de Pedro[2] (o aluno) ia se explicando. Ele, na busca de sua identidade, rasgando os modelos de casa – sofrendo. O pai dizia que, antes, o filho era estudioso, organizado, mas agora…

Comecei a olhar com mais atenção para meu aluno que buscava ser ele mesmo e rompia assim com o modelo que os pais haviam escolhido para ele. Justifiquei o desespero dos pais – Pedro não se acomodava ao modelo que lhe impunham.

Entendi a desarrumação da maioria dos meus alunos de 6ª e 7ª séries. Justifiquei a existência de pessoas desajustadas por falharem nessa busca de identidade.

Você, diga sinceramente, acha melhor ou não tirar Pedro daqui?

Os pais, em desespero, pediam que eu concordasse em apontar a escola como culpada de tudo.

Que tal tentarmos deixá-lo mais uma etapa – a segunda? Quem sabe tudo se resolve?

Tentava argumentar, um pouco desanimada, julgando-me impotente, fraca, diante daquele pai, daquela mãe que sentiam o filho escapando pelos dedos e fechavam as mãos tentando detê-lo, em vão.

Aprendi, como professora, a aceitar o desafio do outro, mas impossível dizer minha experiência àqueles pais – eles precisavam viver essa diferença e, mesmo sofrendo, aprender a conviver com os outros.

Uma semana depois, a secretária do colégio avisava-me que Pedro havia sido transferido. E eu, que tinha jurado não fazer mais reuniões de pais, desisti da jura.

 

Publicado em:

NASCIMENTO, Ynah de Souza. “Aprendiz de professora; o aluno desarrumado e outras histórias”. Recife: Edição da autora, 2012.

[1] Experiência vivida pela professora Ynah enquanto Supervisora de Classe de alunos do Colégio de Aplicação da UFPE.

[2]O nome real do aluno foi trocado para preservar sua identidade.

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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