Colégio de Aplicação da UFPE: concurso ou sorteio? Algumas reflexões

Tenho muito orgulho em poder dizer que nunca vou deixar de ser professora do Colégio de Aplicação da UFPE. O tempo que lá vivi, desde 1984, ano em que fui aprovada em um concurso público, até minha aposentadoria em 2003, foi fundamental para que eu construísse o meu perfil de professora de Português. E foi fundamental, também, para que eu construísse relações profissionais e pessoais com colegas e alunos.

Agora, diante da notícia veiculada no Jornal do Comércio[1] sobre a proposta de se mudar o processo de seleção de prova para sorteio, gostaria de registrar algumas reflexões que talvez possam colaborar para essas discussões.

Ao longo desses dezenove anos em que vivi intensamente o CAp – atuando em vários papeis, como professora, Chefe de área, Coordenadora do Ensino Médio e Chefe do Laboratório de Informática –  em várias ocasiões discutiu-se o modelo de entrada de novos alunos. Não sei se é do conhecimento de todos, mas o Colégio de Aplicação é um espaço democrático, em que as discussões passam pelas áreas de ensino, pelo conselho departamental e pelo Pleno do colégio. Dito isso, gostaria de lembrar que muitas vezes essa proposta de sorteio foi submetida ao Pleno e não foi aprovada. Vale esclarecer que nessas ocasiões, o Pleno era composto pelos professores e técnicos; não me lembro de haver representação de alunos e familiares.

Para quem não participou dessas discussões, fica difícil acompanhar as lutas travadas dentro da instituição entre os que defendiam o sorteio e os que defendiam a prova. E, basicamente, os argumentos mais fortes para o sorteio estavam relacionados ao processo de democratização do acesso, que deveria ser igual para todos – e não apenas para quem tivesse oportunidade de poder se preparar. Interessante já aqui observar que a ideia de democratização estava também subjacente aos argumentos de quem defendia a prova: nivelar alunos estudiosos com alunos pouco motivados era injusto. Alegava-se, também, que na época em que não havia seleção (antes de 84), mas um convênio entre o CAp e a Secretaria de Educação que permitia o ingresso automático de alunos de escolas públicas era lamentável o que acontecia: os alunos entravam, repetiam o ano e, no ano seguinte, eram jubilados. “Então, questionavam os contrários ao sorteio, para que deixar entrar para depois colocar para fora, certificando que a culpa do fracasso era do aluno?”

Cada vez que esse assunto aparecia, estabelecia-se uma verdadeira guerra interna entre os que queriam sorteio e os que eram contra. Foram memoráveis – do ponto de vista da argumentação – os debates liderados pelo saudoso professor de Filosofia Augusto Burle. E, independente do resultado da disputa, eu sempre me senti privilegiada em poder vivenciar momentos democráticos de ricas discussões.

Definido que haveria prova, o Conselho Departamental indicava a comissão de seleção, e, se éramos contra ou a favor da prova, não importava. Era hora de procurar fazer o melhor possível. A equipe se reunia e tentava definir o perfil da prova de Português e Matemática, considerando que competências mínimas seriam necessárias para que um aluno, aprovado, pudesse receber o melhor ensino e alcançar níveis altos de aprendizagem. No caso de Língua Portuguesa, o foco era nas competências de uso da língua, o que nos fez ampliar a prova objetiva, com questões de múltipla escolha, com questões discursivas e redação. Tenho saudades dessas reuniões em que tive o privilégio de aprender muito com meus colegas de Língua Portuguesa, como o professor Antônio Netto e as professoras Euna Alexandre e Kátia Barreto. Quanto profissionalismo. (Quem sabe um dia poderemos ver reconhecido tudo isso!)

Nunca foi tarefa simples elaborar as provas de seleção. Era pressão de todos os lados. Entretanto, o trabalho foi seguindo. Ao longo dos anos, fomos procurando imprimir um modelo mais amigável de prova, considerando que, a cada concurso, os candidatos eram cada vez mais novos. Tentávamos minimizar, desse modo, o estresse que víamos estampado no rosto daquelas crianças, muitas com 9 anos de idade.

Entretanto, o mundo muda e o contexto social, político e econômico de um país não é estático. Particularmente na área de Educação, o nosso país tem vivido uma tragédia. Verbas insuficientes, pouca valorização dos profissionais da área e um sucateamento das escolas públicas, entre outros problemas. Ao mesmo tempo, diante da tragédia do ensino público, as famílias desejosas de oferecer uma educação de qualidade para seus filhos, não encontram outra saída a não ser matriculá-los em escolas privadas. E aqui vale as escolas de bairros nobres ou não. Conheço escolas muito bem estruturadas em bairros populares. O que define a qualidade do ensino oferecido é a seriedade da instituição e não o bairro em que a escola está localizada. Entretanto, o custo de manter um filho em uma escola assim é alto. Então, diante da possibilidade de poder oferecer um ensino de qualidade, de graça e garantir bons resultados acadêmicos, ao longo dos anos houve aumento da procura pelas vagas oferecidas pelo colégio. Vale ressaltar que isso não constitui exclusividade da UFPE, o aumento é significativo em todas as instituições públicas consideradas de qualidade pela sociedade: em Recife, Colégio Militar e Escola de Aplicação da UPE, por exemplo.

Então, nesse momento em que se volta a discutir o modelo de entrada, gostaria de expressar minha opinião. Um dos argumentos de defesa do sorteio é a afirmação de que o colégio é “uma ilha de excelência” e que “essa ilha” deve estar disponível para todos, sem distinção alguma, nem social nem acadêmica. Cabe aqui uma pergunta: o sorteio garante que isso vá acontecer? Ou ele fará surgir novas formas de exclusão no momento em que as lacunas trazidas pelos candidatos sorteados não puderem ser sanadas e eles forem reprovados e, depois, expulsos?

Sim, é fato, em outros colégios de aplicação de instituições federais do país há sorteio, mas ele acontece para a Educação Infantil ou Ensino Fundamental Séries Iniciais. Não seria mais democrático, então, oferecer uma escola de qualidade desde a Educação Infantil? O acesso seria por sorteio – todos os candidatos estariam em condições semelhantes do ponto de vista escolar, e não haveria injustiças – e abrir-se-ia um espaço para formação de profissionais nesse nível escolar tão importante.

Se, ao final das discussões – condição imprescindível em uma sociedade democrática – decidir-se pelo sorteio, ele não poderá constituir uma decisão isolada. Ele deverá estar contemplado em um projeto que preveja todas as ações necessárias para que esse sorteio promova, de verdade, o acesso democrático à instituição. Caso contrário, como se diz, “a emenda será pior que o soneto”. Projeto aprovado, TODOS – a favor ou não do sorteio – precisarão assumir o compromisso de fazer cumprir esse projeto.

Entretanto, mesmo que tudo isso venha a acontecer, ainda é muito pouco diante da vocação do CAp-UFPE. O Colégio de Aplicação é uma instituição de ensino pública. Isso significa que precisa assumir seu compromisso com a sociedade em geral e, particularmente, com outras instituições também públicas de ensino. Nesse sentido, tem competência e precisa ter compromisso de oferecer projetos de extensão que possam atender a diferentes segmentos da sociedade. O colégio tem em seu quadro – de ativos ou aposentados- profissionais qualificados e comprometidos com a educação pública de qualidade que podem oferecer diferentes ações educativas voltadas à comunidade. Estarei sempre à disposição para contribuir.

[1] http://m.jc.ne10.uol.com.br/canal/cidades/educacao/noticia/2015/10/10/colegio-de-aplicacao-da-ufpe-podera-mudar-forma-de-ingresso–203045.php

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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5 respostas para Colégio de Aplicação da UFPE: concurso ou sorteio? Algumas reflexões

  1. Clecio Bunzen disse:

    Gostei amiga! Sou a favor do sorteio, pois acho que a prova também seleciona um determinado perfil social e cultural de alunos, com um capital cultural escolar bem específico. Os alunos (em época de cotas) ganham um bônus duas vezes e concorrem com outros alunos de escolas públicas que estudaram em contextos em que qualquer “seleção” não foi possível acontecer. Acho que a questão da “reprovação” ou “expulsão” é outra forma de selecionar pela exclusão dos alunos com dificuldades de aprendizagem etc. A escola deve repensar modos e maneiras de tratar com heterogeneidade e escolas de excelência podem acontecer em contextos os mais diferenciados.

  2. Pingback: Colégio de Aplicação da UFPE: concurso ou sorteio? Algumas reflexões | Ynah de Souza

  3. Gostei professora um excelente texto.

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