Ruth Rocha, Harry Potter e Daniel Pennac

“Harry Potter não é literatura”. Essa afirmação, que poderia ser dita por qualquer pessoa – e, provavelmente, não causaria tanto espanto e revolta – foi dita por Ruth Rocha em recente entrevista ao site IG (fonte indicada ao final). Segundo ela, não é literatura, mas “entretenimento, best-seller”, moda passageira. Essa declaração foi suficiente para suscitar inúmeras reações negativas dirigidas à grande dama da literatura infantil, autora de tantos sucessos como “O Reizinho mandão”, “Marcelo, marmelo” que, segundo ela, tem mais qualidade literária do que os livros do bruxinho de Hogwarts.

Antes que alguém venha me cobrar algum posicionamento definitivo diante dessa declaração, é importante destacar que não tivemos acesso ao contexto completo em que ela foi produzida. Portanto, já esclarecemos que não é possível aqui avaliar o que Ruth Rocha declarou, principalmente porque desconhecemos esse contexto, e sabemos muito bem que, a depender das condições de produção de um discurso, cada trecho desses destacados pode suscitar interpretações diferentes e até opostas.

Desculpe se desaponto os brigões de plantão. Até porque não sou autora de literatura infantil, mas professora. E é desse espaço que vou tentar expressar o que penso sobre o assunto, o de professora, de literatura e, em algumas situações, de literatura infantil.

Para comentar essa polêmica, vou recuperar um episódio que vivi em tempos de professora no Colégio de Aplicação da UFPE. Em uma das ocasiões de atendimento aos licenciandos da Faculdade de Educação, uma licencianda me inquiria sobre as razões que me faziam ratificar a escolha de algumas alunas em ler e apresentar em aula a leitura de um daqueles livros da coleção Sabrina (ou Bianca, já não me recordo bem). Segundo a futura professora – mas ainda aluna do curso de Letras da UFPE – aquilo não era Literatura.

Ora, na época, trabalhávamos com Biblioteca de Classe. E as alunas idolatravam aqueles livros. Quantas vezes pude constatar que elas não prestavam atenção à aula porque estavam lendo, escondido, esses livros… Então, se eu queria que elas lessem, por que não aceitar suas escolhas? Deu muito trabalho convencer a licencianda de que a minha decisão não significava que as alunas só leriam aqueles livros. Mas que eles constituíam um ponto de partida para mostrar que havia outros textos, mais elaborados literariamente, que também poderiam vir a fazer parte do acervo de leituras das alunas.

Se eu conhecesse, na época, os mandamentos de leitura de Daniel Pennac, teria sido mais fácil convencer a licencianda. Talvez um teórico francês que aborde, em seus livros, as experiências negativas que teve nas aulas de leitura na escola, pudesse ser mais convincente que eu.

Daniel Pennac

Daniel Pennac

E, o mais interessante, é que minhas alunas, ao final daquele ano, declararam que não queriam mais ler os livros da Coleção Sabrina/Bianca porque eram muito repetitivos… A história era sempre a mesma, disseram elas. Isso porque havíamos exercitado – ao longo das aulas – a função da estratégia narrativa literária.

Então, do ponto de vista das propostas pedagógicas para o estímulo à leitura, não são os títulos que contam, mas a metodologia escolhida para o trabalho.

Assim, como nosso objetivo aqui não é concordar ou discordar da Ruth Rocha, e as razões de nosso comportamento já foram apresentadas, gostaria de retomar a polêmica através de outro viés – a do professor que quer estimular seus alunos a lerem textos de qualidade. Para esses, o que posso dizer? Partam sempre do interesse do aluno, mas não se limitem a esse interesse. Provavelmente, ele gosta do que gosta porque não conhece outros livros… E esse comentário vale, também, para outras áreas, como a área das artes plásticas e da música. Só se pode gostar do que se conhece. Verdade?

Então, se os alunos gostam tanto do bruxinho Harry Potter, por que não partir dele? Se os alunos adoram aqueles livros da Coleção Meu Querido Diário Otário, por que não partir deles? Se meus alunos gostam dos livros de Paulo Coelho, podemos definir essas leituras como ponto de partida. E, se nós, professores, formos habilidosos, poderemos chegar aos textos literários mais elaborados. Mesmo assim, nunca devemos nos esquecer de que posso saber que um livro é reconhecidamente “literário” – segundo os cânones da academia – e, mesmo assim, não gostar dele. Talvez as declarações de nossa dama da literatura infantil devam ser interpretadas nessa direção. E, se nosso aluno chegar a esse ponto de reconhecer a importância de um livro de literatura, e, mesmo assim, assumir que não gosta do livro – nossa missão como professora pode ser considerada um sucesso.

 

Fonte da divulgação: http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2015/04/29/para-ruth-rocha-marcelo-marmelo-e-mais-literario-que-harry-potter.htm

 

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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