O passado é lição para se refletir e se repetir sim, quando significa afago ao coração

Não sou passadista. Mas também não concordo totalmente com Mário de Andrade: o passado é lição para refletir, e não para repetir. A sabedoria e a experiência que a vida vai nos dando ajuda a distinguir as repetições que fazem muito bem à alma, ao coração.

E foi isso que aconteceu ontem, dia 11, na comemoração dos 30 anos da minha turma querida do Colégio de Aplicação da UFPE. Como vocês, sentia-me caloura também – embora tivesse sido contratada em 1984, quando fui aprovada no primeiro concurso público para professor, não havia assumido turma alguma, mas dado continuidade ao trabalho da professora que saíra, já que só comecei oficialmente em agosto, depois de uma greve que durara em torno de cinco meses. Então, só me sentiria professora de verdade no ano seguinte, 1985, quando assumi a 5ª série da tarde. Ainda hoje me emociono em pensar naquelas crianças de 10/11 anos, cheias de energia e extremamente receptivas às inovações pedagógicas que sempre caracterizaram minha trajetória profissional. E de seus pais e mães, alguns dos quais iam com frequência ao colégio nas reuniões de pais e ratificavam sua confiança na minha atuação como professora e como supervisora de classe.

Festa dos 30 anos da turma 1985

Festa dos 30 anos da turma 1985

Assim começamos a construir uma família, que permaneceu junta, como professora e alunos durante sete anos – da 5ª série ao 30º ano do Ensino Médio. E que continua unida, agora como ex professora, “tia Ynah”, amiga e ex-alunos/alunas e amigos e amigas. Juntos vivemos muitas aventuras e emoções. Nem sempre perfeitas, é claro, mas que sempre serviram para aprendizados de vida. Nesse período tive o apoio incondicional dessa turma querida, sempre pronta a embarcar comigo em aventuras pedagógicas. E sempre pronta, também, a me apoiar em momentos difíceis, como na minha separação, por exemplo. Na hora de reiniciar uma nova vida, não tinha medo – meus alunos e minha filha Rachel, na época bebê, sempre me fizeram caminhar para frente, na certeza de que dias melhores viriam.

E vieram. Posso afirmar que tenho orgulho da minha passagem pelo Colégio de Aplicação, ao longo de 19 anos muito bem vividos. E posso afirmar que vocês, turma de 1985, foi fundamental para isso. Com vocês arrisquei e sempre deu certo: os Diários publicados na 5ª série, as Histórias a Trinta Mãos, a Revolta das Consoantes, a Biblioteca de Classe, o júri simulado e a TVendo – uma sátira à televisão, entre tantas outras experiências pedagógicas.

Descobri muitas coisas com vocês, tive certeza, por exemplo, de que nasci pra ser professora, não uma professora repetidora, mas uma professora inventadora de modas pedagógicas. Descobri, também, que alunos sempre sabem quando a bronca do professor é justa e vai servir para recolocar o trem nos trilhos. Sabem, também, quem os ama – incondicionalmente, com todas as suas particularidades, e para sempre.

Assim, a noite de ontem alimentou minha alma e meu coração. Estava ali – em muitos momentos calada – ouvindo as confidências de “bomba estourada”, “filas bem sucedidas e não sucedidas”, brigas com os outros professores e até dos momentos em que vocês percebiam que eu chegava mais estressada: “Eu não estou reconhecendo minha turma hoje!”, ficou sendo uma frase famosa.

Muitas emoções, que nem essas palavras que vão fuindo agora poderão expressar. E não poderia ser diferente: isso acontece todas as vezes que os reencontro, ao vivo e a cores, ou pelas postagens do Facebook. Acompanho os sorrisos de alegria, as viagens, as gracinhas dos filhos e filhas, o amor que vocês explicitam nas fotos. Acompanho até as provocações amorosas que um certo dente quebrado vive fazendo… E me divirto muito!

Então, como poderia concordar com Mário de Andrade? Esse passado que vivi com vocês quero sim, continuar a repetir indefinidamente, até chegar a hora de ir prestar serviço em outro plano. (Quem sabe, se tiver merecimento, poderei continuar por lá a ser professora?)

Enquanto isso, vamos repetir esses reencontros, que alimentam a alma e aquecem o coração. Tudo mais fica tão insignificante diante da grandiosidade de amor que sinto por vocês!

 

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Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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10 respostas para O passado é lição para se refletir e se repetir sim, quando significa afago ao coração

  1. Gisele Sena disse:

    Adorei!!!

  2. Geysa disse:

    Lindo queridíssima!!!

  3. Não pude ir, mas faço parte disso também😀

  4. Eduardo Costa. disse:

    Naquela tarde de 1985 ela foi a primeira professora a entrar na nossa sala.
    Marcou muito a nossa turma.

  5. Tarciana Egito disse:

    Ynah! Participei apenas do segundo grau com vc e com toda essa turma de 85. Ficava impressionada com sua postura diferenciada em sala de aula. Tenha certeza, você marcou bastante minha vivência no Aplicação! Bjs. Tarciana Egito

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