Partir e chegar são só dois lados da mesma viagem…

Há que se abrir mão da imortalidade se preciso for para viver a grandiosidade do amor.
Homenagem à professora Tany Mara Monfredini Cordeiro de Moura
Semana de Letras – UFRPE – 9.12.2014

Nascer, crescer, reproduzir-se e morrer. É o ciclo da vida. Pelo menos, é o que aprendemos desde criança nas aulas de ciências. Esses eventos naturais fazem parte do ciclo de vida de qualquer organismo. Então, sabemos que teremos um fim, mas… eu pergunto: quem quer levar a morte a sério? É bem melhor fingirmos que ela não existe. Quem sabe ela se esquece de nós… Negamos. Através do silêncio. Através da linguagem. “Entregar a alma a Deus ou entregar a alma ao diabo (a depender, é claro, de quem morreu); ir para o beleléu (sabe-se lá onde fica esse lugar!); bater as botas (sem nem mesmo um dia na vida ter usado botas)”. E nem os poetas conseguem ignorar essa “indesejada das gentes”. Manuel Bandeira, que passou a vida esperando a morte (mas morreu aos 82 anos) nos diz:
Consoada
Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Bonito poema. Muito bom se houver tempo para pôr a mesa e arrumar tudo nos seus devidos lugares. Mas, vamos adiando esse papo de morte. As palavras do livro Eclesiastes podem ajudar a aplacar esse “medo das indesejadas das gentes”: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar”. (3:1-5)
Entretanto, não estamos aqui para chorar ou para prantear. Mas, sim, para homenagear essa nossa querida amiga e excepcional professora Tany. E aproveito a oportunidade para agradecer à coordenação do curso de Letras da UFRPE, na pessoa do seu coordenador, professor Inaldo Soares (amigo de longas datas) pelo convite. Aproveito, também, para dar os parabéns pela iniciativa.
Eu e Tany conhecemo-nos no ano de 2000. Eu compunha a banca de seleção quando ela prestou concurso público para professora de Português do Colégio de Aplicação da UFPE. Claro que tirou o primeiro lugar. Um tempo depois assumiu a vaga, depois de finalizar seu contrato no Colégio Militar do Recife. Lá, a 2º tenente Tany, atuou por dois anos. Então, para quem a conheceu depois, pode parecer engraçado visualizá-la de farda, tirando serviço, marchando ou prestando continência à bandeira… Entretanto, seu compromisso com a educação estaria acima desses rituais da caserna.
De candidata, tornamo-nos amigas. De trabalho e de laser. Morava sozinha na época e não se alimentava direito, nem gostava de tomar café de manhã. Para amenizar, lembro que providenciava lanchinhos, que ficavam na nossa sala de Comunicação e Expressão. Assim que ela chegava às 7h30 para começar o expediente, era “obrigada” a se alimentar direito. Outras recordações me fazem viajar a um carnaval que brincamos em Recife e Olinda. Todos os dias com nossas garrafinhas de água mineral sem gás.
Inquieta e sempre determinada. Diriam alguns até demais. Fez seleção para o doutorado em educação da UFMG e solicitou liberação do Aplicação. Alegaram que ela estava ainda em período probatório e negaram o pedido. Ela não se amedrontou: simplesmente, pediu demissão de um emprego público que lhe daria estabilidade financeira. Quem teria essa coragem?
E lá se foi minha amiga pras bandas de Minas Gerais. O Colégio perdia a oportunidade de manter em seus quadros uma grande profissional. Ainda bem que a nossa amizade já estava solidificada: e continuamos a “trocar figurinhas” no campo pessoal e profissional. Foram muitos os artigos acadêmicos que ela generosamente copiava e enviava para mim. Lembrem-se de que em 2000 não havia essa facilidade toda de baixar arquivos na internet. E, sempre que estava aqui por Recife, eu podia constatar sua alegria e felicidade com as experiências vividas. Tenho certeza de que ela voltou porque quis, e não porque tenha lhe faltado convite de continuar atuando por lá, principalmente nas atividades de elaboração dos PCNs.
A cada dia eu me tornava mais amiga e admiradora de tamanha coragem em construir o seu percurso profissional. E vale ressaltar que neste período ela vivenciava muitos problemas de ordem pessoal, inclusive a doença e morte prematura de sua mãe na época em que ela escrevia sua tese. E não é difícil imaginar os desafios que ela precisou enfrentar para dar conta de seu doutorado. Vale a pena conhecer sua brilhante pesquisa a respeito da obra de Magda Soares, que lhe concedeu várias entrevistas, transcritas em um trabalho gigantesco.
Entretanto, a conclusão do doutorado, em 2005, não era ainda o objetivo maior de sua vida pessoal e acadêmica. Ela retornou a Recife e prestou concurso para a UPE, campus Nazaré da Mata, em 2006. Mas não ficou lá por muito tempo. Apenas o suficiente para construir novos laços e semear suas ideias. (Recentemente ouvi de uma colega da pós graduação, ex aluna de Tany: lamento sua partida tão precoce porque ela marcou a vida de muitos alunos, inclusive a minha). Em 2009 foi aprovada em concurso para a Universidade Federal Rural de Pernambuco. Sabem aqueles colegas brilhantes que torcemos para não encontrar em caso de concurso público? Ela era uma delas: ganhava todas…
Durante todos esses anos fomos parceiras de trabalho em várias ocasiões. Se uma de nós era convidada, estendia o convite a outra. Assim, sempre foi muito tranquilo poder contar com uma profissional competente para dividir tarefas de elaboração de provas de concurso ou de aulas em cursos de pós-graduação.
Sim, claro que o preço é alto para quem não se conforma em repetir o estabelecido. E Tany sempre soube disso, e nunca desistiu de lutar por seus ideais. No campo profissional, no campo pessoal. Lembro muito bem de sua felicidade quando me contou que estava grávida, da Valentina; e, um tempo depois, que a família ia aumentar de novo: ela e Josivaldo receberam o Francisco. Nós, seus amigos, ficamos conhecendo uma outra Tany: a mãe dedicada a Francisco e Valentina – seus maiores projetos de vida.
Sempre lutadora. Sempre corajosa. E exatamente por isso é muito difícil aceitar que não é possível mais contar com a minha amiga-parceira para partilhar algum convite de trabalho.
Recorro de novo a Manuel Bandeira para me consolar:

Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunham:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia.
Inadvertida para os demais,
[…]
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.
Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua vida continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta. (BANDEIRA, 1988, p. 63).

Ou, busco consolo em Hilda Hilst:
Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho
Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva (HILST, 2003, p. 50).

Para finalizar, mais uma confidência. Guardo até hoje com carinho um CD que Tany me deu antes de partir para o seu doutorado. Fazia sua mudança e chegou com ele nas mãos. Não só isso, com aquele seu jeito irresistivelmente controlador disse: você precisa ver esse filme. É a sua cara. Então, para homenagear essa amiga que virou estrelinha no céu, um vídeo com a canção tema do filme “Cidade dos Anjos”. Só agora entendo seu recado: há que se abrir mão da imortalidade, se preciso for, para se viver a grandiosidade do amor. E ela sabia disso muito bem.
Obrigada pela oportunidade! Boa semana de Letras para todos e todas.

Angel – Cidade dos Anjos
https://www.youtube.com/watch?v=HDHv64D8rd4

Tany

Semana_letras_ufrpe

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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6 respostas para Partir e chegar são só dois lados da mesma viagem…

  1. inaldo soares disse:

    Obrigadíssimo, Ynah. Só não gostei do”Medeiros” no meu nome. Beijos.

  2. Silvana Fonsca disse:

    Professora Ynah, bom dia.

    Sinto muito pela ausência da sua amiga e parceira de trabalhos Tany.O seu relato vivenciei, fiz parte de cada palavra dita com carinho e dor. Não acredito na morte . Para mim é uma passagem e podemos sim encontrarmos no mar, cachoeira e outras coisas pertencente a natureza e a Deus. Uma trajetória de vida vivida com entusiasmo, otimismo e vontade de buscar sua história. Isto ela conquistou. Parabéns pela sua homenagem tão mininciosa que através dela conheci Tany.Sinto muito . Todos nós perdemos um pouco da Tany. Que ela encontre a paz a onde estiver.

    • ynahdesouza disse:

      Silvana, sempre é muito difícil dar um até breve para as pessoas que amamos. Mas um dia tenho certeza de que voltarei a encontrar minha amiga porque “partir e chegar são só dois lados da mesma viagem”. Beijos.

  3. Gláucia Jorge disse:

    Cara Ynah, meu nome é Gláucia, sou professora da UFOP aqui em Minas Gerais e conheci a Tany lá em Belo Horizonte, quando ambas fazíamos doutorado. Por algum tempo dividimos um apartamento e acho e lembro da disponibilidade da Tany para se inserir nas bagunças que eu e meus amigos fazíamos nas madrugadas mineiras! Ela surgia do seu quarto e dizia: “É festa?” e se integrava ao grupo – que se encantou por ela. Claro, ficamos amigas, confidentes e nos admirávamos mutuamente. Nossas filhas chegaram em tempos próximos e soube feliz da segunda gravidez da Tany Mara (como eu gostava de me referir a ela). Soube apenas hoje da sua partida, não sei a quem procurar e nem com quem chorar essa partida precoce, absurdamente imperdoável. Alguém deveria tê-la proibido de partir. Agora sua voz e risada estão aqui ao meu lado, como se ela mesma estivesse. O problema é que estou inconsolável e indignada… Pessoas boas deveriam viver por duzentos anos. A Tany também “deixou” eu CD lá em casa. Até hoje eu olho pra ele e penso “é da Tany, preciso guardar para devolver um dia”… Ela um dia me disse, num boteco bem mineirinho, um pedacinho de uma música do Chico Buarque que sempre que ouço, lembro dela:

    “…É como um dia depois de outro dia
    Abrindo um salão
    Passas em exposição
    Passas sem ver teu vigia
    Catando a poesia
    Que entornas no chão…”

    Ela era assim: entornava poesia no chão…

    • ynahdesouza disse:

      Glaucia, foi muito triste acompanhar a partida de nossa amiga. Mas foi gratificante ver tantos amigos pranteando sua viagem. Um dia, se for do nosso merecimento, voltaremos a nos encontrar. Conte com uma amiga aqui em Recife – amiga de amiga é amiga também! Abraços

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