A arte imita a vida ou a vida imita a arte – Redação do ITA – 2013/2014

Segue o comentário que redigi para o GGE-Resolve

Quem esperava um texto não verbal como tema de redação surpreendeu-se com a proposta deste ano. Entretanto, essa surpresa não conseguiria prejudicar nossos alunos do GGE porque, ao longo de nossas aulas, estamos sempre alertando para o fato de que não há um modelo padrão da prova de redação do ITA. No máximo, ao longo dos últimos concursos, foi possível identificar “uma tendência” ao se pedir que os candidatos escrevessem a partir de textos não verbais (charges, tirinhas, e até fotografia). Neste vestibular de agora, nada de textos não verbais… não havia nem mesmo um tema explícito para que os candidatos escrevessem. E isso também, com certeza, fazia parte da avaliação: a banca cobrava do candidato a competência em descobrir o tema a partir de textos da prova, a partir de cinco considerações de alguns cineastas. E que cineastas opinavam! Todos com uma credibilidade inabalável na história da humanidade. Em diferentes épocas e com diferentes nacionalidades (como sempre enfatizamos em aula, é preciso prestar atenção em todos os elementos que acompanham textos e/ou imagens da proposta), todos unânimes em afirmar que cinema não é imitação do mundo real, mas construção de uma nova “realidade”:

  1. “Num filme, o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação” (Charles Chaplin, 1989-1977, cineasta britânico)
  2. “O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho” (Orson Welles, 1915-1985, cineasta americano)
  3. “O cinema é um modo divino de contar a vida” (Frederico Fellini, 1920-1993, cineasta italiano)
  4. “Cinema é a fraude mais bonita do mundo” (Jean-Luc Godard, 1930, cineasta francês)
  5. “Muitas vezes, se usa a palavra “cinematográfico” como sinônimo de coisa excepcional. “Não sei o que é cinematográfico!” Muitas vezes, o cinema é um acúmulo de momentos escolhidos, a dedo: a paisagem mais linda, com a luz mais incrível, como o momento mais emocionante, enfim… Só que eu estava interessada numa coisa mais simples. E às vezes as pessoas me perguntam: “Você trabalhou de um jeito até mais documental, às vezes. Por quê? Você queria que fosse mais verdadeiro?” Aí, eu falo: “Não! Não é isso!” Eu acho que qualquer coisa é construção. O documentário também é uma construção. Nada é mais ou menos verdadeiro. O que existe é a verdade de um filme. Interna. (Transcrição de parte da entrevista com a cineasta brasileira Sandra Kogut, constante no DVD do filme Mutum, 2007. Sandra Kogut é diretora e coautora do roteiro do filme, que foi inspirado na obra Pequenas histórias, de Guimarães Rosa.)

 

Depois desses comentários, os candidatos eram convocados a redigir seus textos dissertativos a partir de um ponto de vista a respeito desse assunto. Ou, como se lê na prova: “Considerando a relação entre as declarações dos cineastas e os textos da prova sobre o mesmo tema, redija uma dissertação em prosa, sustentando um ponto de vista sobre o assunto”.

Vencida a surpresa inicial (e o possível nervosismo natural nessas situações de concurso) vários desafios precisavam ser vencidos pelos candidatos: (1) ler e interpretar as citações a respeito de cinema, relacionando-as aos textos da prova; (2) definir sua tese e escolher o ponto de vista para tratá-la; (3) escolher os argumentos claros e consistentes para defender esse ponto de vista; (3) elaborar um texto coerente e coeso, (4) demonstrando que o candidato dominava o português padrão.

Não era difícil identificar o tema. Cinema. Os textos ajudavam muito nessa identificação. Mas, discutir o quê? A partir de que ponto de vista? Nesse momento era hora de relacionar os comentários dos cineastas aos dois textos da prova. Desse modo ficava mais fácil entender o que a banca queria: que o candidato refletisse em seu texto a respeito da função social do cinema, discutindo sua “veracidade”. E chegava-se a uma pergunta inicial para “inspirar” o planejamento do texto a ser produzido: afinal, o cinema é ou não a imitação da realidade?

Na hora de escolher o ponto de vista para tratar o tema, temos certeza de que nossos alunos lembraram-se dos nossos comentários em aula a respeito das possibilidades argumentativas possíveis: responder negativamente à pergunta e ir de encontro aos cineastas? Responder afirmativamente à pergunta e concordar com os cineastas? Ou encontrar um “meio termo” entre essas possíveis escolhas (o fato, por exemplo, de que embora a obra cinematográfica tome o real como referência, não necessariamente estabelece, como esse real, uma relação de mimesis ou cópia). O importante para a banca não era a escolha de uma dessas respostas, mas principalmente o caminho que o candidato escolheria – isto é, seu percurso argumentativo.   

 Independente desse caminho, algumas reflexões deveriam ser obrigatórias no texto a ser produzido, como estratégias de argumentação e/ou como elemento novo para a conclusão:

a)      A obra cinematográfica é uma obra artística coletiva, porque resulta do trabalho de diferentes figuras: o autor do texto, o diretor, o montador, os atores; e também público, que com ela interage e constrói significados;

b)      A obra de arte cinematográfica constitui um texto “aberto”, sujeito a diferentes leituras e interpretações, a depender do momento histórico, do espaço em que circula e, principalmente, do público com o qual interage;

c)       A existência de um viés cultural que influi na interpretação do filme; um mesmo filme, por exemplo, pode ser sucesso em algumas culturas e fracasso em outras; pode ser proibido em algumas e aclamado em outras (reflexões de Manuel Bandeira no texto 1, por exemplo);

d)      Um filme pode desencadear mudanças sociais;

e)      O desafio de produzir obras cinematográficas que proponham mudanças sociais em uma sociedade capitalista que tudo devora, cujos sistemas organizacionais estão em constantes crises.

 

Depois de planejar, era hora de produzir e revisar o texto; texto finalizado, hora de fazer uma leitura do início ou fim, observando a “clareza e consistência dos argumentos em defesa de seu ponto de vista sobre o assunto”, a “coesão e coerência do texto” e o “domínio do português padrão”. Isso sem falar que “a redação deve ser feita na folha a ela destinada, respeitando os limites das linhas, com caneta azul ou preta, obedecendo à norma padrão da língua portuguesa e, obrigatoriamente, com um título”.

Além desses critérios elencados pela banca de seleção, os futuros alunos do ITA deveriam se preocupar em avaliar em seu texto a construção dos períodos e parágrafos, o uso dos marcadores argumentativos, e a escolha de vocabulário adequado. Isso tudo sem se esquecer de elaborar uma introdução criativa, que deixasse de lado aquele texto “careta”, ou aquelas famosas introduções em forma de definição, do tipo “O cinema é…”; ou conclusões do tipo: “Tendo em vista o exposto acima…”

Mais uma vez, é justo deixar registrado nossos elogios à banca de elaboração da prova de redação do ITA.  Fica claro que a instituição não propõe um tema complicado, mas uma proposta que viabilize a reflexão e expressão escrita acerca de um tema relevante: o cinema como obra de arte. E nada mais desafiador que provocar a reflexão a respeito da função social do cinema e, por extensão, da arte.

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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