Reflexões sobre o ato de escrever/ser

REFLEXÕES SOBRE O ATO DE ESCREVER / SER[y1]
PROFESSORA YNAH DE SOUZA

O aluno desarrumado e outras histórias.

O aluno desarrumado e outras histórias.

GREVE NO COLÉGIO
Após reunião, a necessidade de um esclarecimento escrito aos pais dos alunos: uma comissão de professores apronta um documento que é lido para os demais.
Atenção de todos ao dito (e ao não-dito).
Quando foi lido que os professores aderiram `a greve, na Assembléia, por maioria esmagadora, um comentário:
— Acho esmagadora uma palavra muito forte!
— Acho que os professores aderiram à greve não está bom, não demonstra nosso engajamento na luta. Por que não escrever “os professores decidiram participar da greve”?
Professora de Português, quis revelar o não-dito dessas afirmações – por que um termo é forte ou fraco, num documento escrito? O que me impulsiona a escolher, dentre várias opções, a palavra adequada? (Há muito estudamos eixos sintagmáticos e paradigmáticos, mas e daí?).
E continuando nossas dúvidas:
O que nós, professores de Português, vimos ensinando (?) em aulas de redação? Principalmente, o que estamos ensinando nós, professores engajados politicamente em defesa de propostas educacionais mais eficazes, como vivenciamos esse engajamento em sala de aula? Será que nos contentamos em falar sobre e esquecemos o fazer com?
Vejamos. Repetimos aos alunos (e mais, escrevemos em suas redações) receitas do tipo: pense em seu leitor; seja claro e conciso; use vocabulário adequado (a quê?). Propomos exercícios chamados lingüísticos cujo objetivo único é treinar o aluno em ortografia, pontuação, concordância nominal, verbal etc. Fazemos tudo isto com a convicção de que proporcionamos ao aluno oportunidades de caminhar em direção à sua linguagem escrita própria; achamos estar preparando nosso aluno para as tais mudanças sociais…
Será que meu aluno saberia usar uma palavra forte ou substituir uma fraca de fosse necessário?
Quando digo ao meu aluno pense em seu leitor, corro o risco de passar a idéia de que quem escreve deve ser submisso a um futuro leitor, expressando apenas as opiniões que possam vir a agradar a esse leitor. Quem sabe esse conselho não explique a presença de períodos truncados – eu sei que meu leitor não concorda com minhas idéias (ou não quer que eu as divulgue publicamente), o que pode me levar a não expressar tais idéias de forma explícita (assim não corro o risco de ser entendido e criticado…).
Quando digo seja claro e conciso posso embutir o pensamento escreva o óbvio, e pouco (senão pode cometer muitos erros…). E aí,haja clichês e lugares-comuns na redação…[y5] A gente pensa que pedir ao aluno para pensar nesse leitor é contextualizar o ato de escrever, aplicando propostas lingüísticas atuais… Na realidade, não estamos muito longe daquele professor de um desses cursinhos de redação pré-vestibular que ensina aos alunos, segundo depoimento de um aluno meu do terceiro ano colegial, a não se expor na prova de redação do vestibular: se cair um tema polêmico, não seja a favor nem contra (muito pelo contrário…); assim, você não desagrada ao professor que corrigir sua redação[y6].
E os exercícios de seleção de vocabulário, separando em vidros esterilizados, palavras mais formais ou menos formais? Pra que servem?
E, se questionamos o trabalho com redação, por tabela, o trabalho com leitura deixa muito a desejar. Será que nos contentamos em perguntar o quê, como onde e por que acontece o que está explícito? Será que tentamos ver com o aluno a relação entre os propósitos do autor e as formas gramaticais usadas no texto? Em que medida o explícito representa e desvela o implícito, nem o professor, às vezes, tem tempo de questionar; muito menos, de trabalhar com os alunos que estratégias lingüísticas usar, na redação dos textos, para passar (ou esconder) o não-dito através do dito.
Quando presencio cenas do tipo que relatei, acho graças da posição neutra de alguns educadores; preocupo-me com as didáticas e metodologias da vida que teimam em afirmar a neutralidade das técnicas; e chove livro de técnicas de redação…[y8] Ao mesmo tempo, questiono-me se, por trás do descrédito em que se encontram os cursos de Letras, não se pode apontar os interesses da ideologia dominante. Quanto menos gente aprender a ter domínio da linguagem menos gente haverá disputando o poder. E, se o aluno de Letras não aprende a desvelar o dito e o não-dito da linguagem, como poderá ensinar seus alunos a fazê-lo? Por isso, nossos alunos continuam a escrever para encher trinta linhas, continuam lendo para responder a perguntas factuais ou para estudar gramáticas… e nós, professores, falamos em mudanças sociais – mas vamos à caça dos erros gramaticais que os alunos apresentam em suas redações.
[y1]Publicado em Tópicos Educacionais (revista do Centro de Educação da UFPE), v. 11, n.1/2, p.83-85, 1993. Publicado, também, em “Aprendiz de professora; o aluno desarrumado e outras histórias”, relato de episódios vividos pela professora Ynah de Souza durante sua vida pedagógica.
[y5]Vale a pena consultar a obra de Alcir Pécora, publicada pela Martins Fontes em 1983, que trata dos problemas que os alunos apresentam nos seus textos escritos: “ Problemas de redação”.
[y6]Absurda essa orientação quando as bancas de correção das redações deixam claro que o mais importante, no caso dos textos dissertativos, é as estratégias argumentativas que o candidato utiliza para defender sua opinião.
[y8]Foge a esta proposta o livro de Gustavo Bernardo (1985). A redação inquieta. Rio de Janeiro, Globo. Em meu livro “Redação: ta ligado? Como escrever bons textos dissertativos”, Editora da UFPE, 2003, também propomos uma metodologia que passa longe dessas “técnicas”…

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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