Tudo bem

TUDO BEM

Do direito de acordar triste de vez em quando

Ynah de Souza Nascimento

Acordara diferente naquele dia. Domingo, sem sol. Olhara em torno de si: tudo estava do jeito de todo dia de domingo. Os filhos, ainda dormiam; a empregada, tinha saído cedo para seu dia de folga; o companheiro dormia.

Levantou-se. No espelho do banheiro conferiu sua aparência: horrível, como ela supunha. Não dormira direito; tivera, de novo, aqueles sonhos estranhos. Pessoas desconhecidas em um lugar estranho falavam-lhe em uma língua estrangeira. Era sempre assim: depois acordava e não se lembrava do que ouvira no sonho. Mas, aquela sensação de opressão no peito era prova de que os sentimentos experimentados não eram bons. Ainda bem que era domingo e a rotina era não ter rotina (o que não ajudava muito porque, com o passar dos tempos, isto acabou rotineiramente virando obrigação).

Penteou seus cabelos, lavou o rosto. Olhou-se mais atentamente: tinha os olhos inchados, com se tivesse chorado muito. Não se lembrava de choro no sonho, mas tinha cara de quem chorara naquela manhã. O que estava acontecendo? Tudo corria  bem na sua vida: o trabalho, os filhos, o companheiro. Até os outros familiares, à distância, estavam bem e haviam telefonado na véspera, brincando, rindo e demonstrando alegria.

Aquele trabalho com data marcada para ser entregue, havia sido terminado. Para alívio de todos da casa, ela deixaria o computador em paz por uns tempos e poderia relaxar da tensão. Era só entregar (-se).

Será que a sensação de tristeza era resultado da reposição hormonal? Ou a baixa de hormônio provocava aquele mal estar? Ou pior: a causa era a reflexão sobre a meia-idade, que chegava a passos largos, trazendo, consigo, a flacidez, a diminuição da energia, os óculos para ler, o protetor solar no corpo todo, a probabilidade de, em breve, experimentar o bisturi nas rugas, e acostumar-se com o fato de não ser mais jovem… E essa história de dizer que a gente tem a idade do espírito é consolo de quem não aceita envelhecer.

Fechou a porta do banheiro e despiu-se para tomar o ritual banho da manhã. Olhou-se, de novo, no espelho: até que a natureza fora complacente com ela. Via-se magra e até conservada, para a idade cronológica que tinha. Mas, até quando? Lembrou-se de quando estava grávida: barriga e peitos enormes, pernas inchadas, instabilidade emocional. Detestava seu corpo naquela época e sabia que aquela conversa toda, de que mulher grávida é sempre bela, era uma estratégia da sociedade para iludir as mulheres, convencendo-as a deixarem de ser mulheres para assumir o sagrado posto de mãe. Não, ela não era tola. Sabia que, enquanto grávida, estava deformada e horrível. A sociedade que fosse enganar as outras…

Entrou no chuveiro. A água morna caía em seu corpo, em sua pele. Como ela queria que a água também lavasse seus pensamentos e levasse aquela opressão em seu peito. Será que as outras mulheres, às vezes, também acordavam assim? Tudo estava bem, mas ela estava mal… O que é que te falta, mulher? Ela se questionava, enquanto tomava seu banho. Quanta gente queria viver a vida que você leva: tentava se auto-convencer de que era feliz e que aquelas sensações eram superficiais, como a água que caía do chuveiro e batia em sua pele — e que tanto queimava(m)…

Trancara a porta do banheiro. Queria estar a sós, consigo mesma, durante um bom tempo. Por isso, saíra do chuveiro, mas deixara-o ligado: assim todos pensariam que ela ainda estava no banho. O espelho sempre à sua frente denunciando seus olhos inchados e sua expressão triste. Nem a chuveirada alterara sua fisionomia. Mas, era preciso reagir. Afinal, sabia que, se não colocasse a máscara do tudo bem ouviria a mesma pergunta: o que aconteceu? Conta. Você sabe que sou seu amigo. Etc… e tal… Enquanto não chorasse e contasse algo, seu companheiro não a deixaria quieta. E era isso que ela queria: ficar invisível, imóvel, como um lagarto tomando sol na beira do rio. Por que era tão difícil para as pessoas da sua casa aceitá-la quieta? Só por que ela, geralmente, estava alegre?

Passou mais de hora lá dentro. Começou a ouvir um movimento: as pessoas da casa acordavam. Não tinha saída. Abriu o armário que ficava embaixo da pia do banheiro, buscou a caixa de remédios e vestiu sua máscara de tudo bem.

Quando abriu a porta, a filha perguntou: Oi, mãe, tá tudo bem?


Recife, 8 de setembro de 1996.

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
Esse post foi publicado em Autoestima, Diário literário, Dicas para o professor e marcado . Guardar link permanente.

2 respostas para Tudo bem

  1. Carmen disse:

    Pois é Professora!! Belo texto! Engraçado que faz lembrar situações iguais de pessoas iguais que se trancam no banheiro, ligam o chuveiro e choram…choram, até se livrar de alguns “pesos” mas ai aparecem outros “pesos”…é isso. O ciclo da vida tem dessas coisas. Tem uma passagem que lembrei da frase do Arnaldo Antunes e do Nando Reis que coloquei logo no início no meu livro: “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia… No espelho essa cara já não é minha..” da música Não Vou Me Adaptar. Adorei seu blog, Ynah. Vou visitá-lo.

    • ynahdesouza disse:

      Carmem, atire a primeira pedra quem nunca passou por isso, não?
      Adoro a obra do Arnaldo Antunes e do Nanco Reis também.
      Acho que iniciamos uma boa amizade com muitas afinidades!
      Abs
      Ynah

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