Texto argumentativo: planejamento

Nem todos os alunos apresentam dificuldades em ler, compreender e interpretar um texto, seja ele de que gênero for. Entretanto, quando o assunto é produção escrita, não é novidade que as dificuldades são muitas, principalmente em relação ao texto argumentativo. Talvez os alunos estejam acostumados a procurar nos textos a resposta para questões relativas ao conteúdo do texto… Por isso, quando chamo a atenção para os diferentes modos de construção de um texto, as indispensáveis relações de coesão e coerência entre suas orações, períodos e parágrafos, os alunos “sofrem” para entender.

Para facilitar essas atividades, há alguns anos escrevi um livro chamado “Redação: tá ligado? Como escrever bons textos argumentativos”.

Este material que aqui disponibilizo constitui um dos capítulos desse livro. Espero que possa ajudar a quem quer começar a melhorar seu texto argumentativo. O primeiro passo é aprender a planejar.

Sucesso!

TEXTO ARGUMENTATIVO: ARTIGO DE OPINIÃO E REDAÇÃO ESCOLAR

 Leia o artigo de opinião “Da obesidade à fome”, de Antonio Ermírio de Moraes, publicado no jornal Folha de São Paulo.

Anotações de leitura

Corpo do texto, por parágrafos

No título, o autor esclarece o modo de construção de seu texto: comparativo. Consegue chamar a atenção do leitor ao somar ideias contrárias. Da obesidade à fome
O autor aproxima-se do leitor, fazendo uma pergunta. Ainda não trata diretamente do tema. Observe que, neste caso, a introdução não apresenta o tema – como muitos livros de redação afirmam. Ela serve de provocação ao leitor. 1. Você não acha que o sistema de comida a quilo foi uma boa invenção? Penso que o estado de nutrição da população melhorou depois que muitas pessoas passaram a ter acesso à variedade de alimentos que é servida na maioria dos restaurantes que usam esse sistema. É verdade que muitos comensais abusam das gorduras, mas a escolha é deles, pois, nos balcões, há saladas e frutas em profusão.
Agora, o autor compara a situação evidente de  fome por que passa milhões de brasileiros com o contra-senso de, no país, haver tanta obesidade. Provavelmente, há algo errado nisso tudo – e o autor vai tentar descobrir o quê. 2. No outro lado dessa realidade, milhões de brasileiros passam fome, o que é intrigante em um país em que a produção anual de grãos é de 500 quilos por habitante, enquanto no resto do mundo é de apenas 300 quilos. Mais intrigante ainda é verificar que o Brasil não está entre os países mais famintos, mas, ao contrário, tem 31% de obesos.
O autor insere os resultados de uma pesquisa realizada pelo jornal. Com esse procedimento – intertextualidade – dá mais credibilidade ao seu texto – isso constitui a inserção de um argumento de autoridade. O que ele trata no texto é matéria que justificou uma pesquisa. 3. Para complicar o quadro, uma pesquisa publicada pela Folha em 30/08, feita pelas empresas que coletam e separam o lixo nas grandes cidades, mostra que os brasileiros desperdiçam muita comida. Isso vale para os lares, os restaurantes, os bufês de festas e as empresas.
Ainda comenta os resultados da pesquisa, detalhando, agora, como se dá o desperdício, tratado no parágrafo anterior. 4. São números impressionantes: 60% dos alimentos adquiridos para consumo são jogados fora. Quando se somam à lata de lixo, as perdas na produção, transporte e armazenamento, o desperdício representa 1,4% do PIB – cerca de R$21 bilhões por ano! Mais da metade do nosso lixo é composto por comida.
Mostra que o problema é nacional e grave, por isso, criminoso é quem desperdiça. 5. Num país onde o povo do Nordeste enfrenta uma dramática seca e onde tanta gente não tem o que pôr na mesa em outras regiões, tal comportamento é criminoso.
Apresenta um tipo de comportamento característico em um outro espaço – a Europa. Além disso, utiliza um outro argumento de autoridade, agora a famosa frase de Lavoisier – novamente intertextualidade –  para sustentar sua proposta, apresentada no parágrafo seguinte. 6. Bem diferente são os europeus, que, de modo geral, cozinham só o que comem e comem tudo o que cozinham. As sobras limpas, quando ocorrem,  são transformadas e consumidas no dia seguinte. É a lei de Lavoisier: nada se cria e nada se perde, tudo se transforma.
Compara brasileiros e europeus e apresenta sua proposta: mudança de hábitos alimentares, principalmente de crianças e adolescentes. 7. Por que nós, brasileiros, que somos muito mais pobres do que os europeus, temos que esbanjar dessa forma? Nada justifica essa perda. Precisamos mudar de hábitos. Está na hora de encetarmos uma grande campanha contra o desperdício de alimentos, a começar por um programa de longa duração de educação das crianças e dos adolescentes – no lar e na escola – para que se consuma tudo o que é comprado.
Detalha sua proposta, inclusive do ponto de vista legal. 8. Quanto às sobras limpas dos restaurantes, bufês e cozinhas industriais, há que investir na logística de conservação e de transporte e na modificação da legislação atual, que responsabiliza o doador por tudo o que acontecer na transferência de alimentos.
Apresenta exemplos bem-sucedidos de controle do desperdício de comida. Retoma, se bem que não de modo direto, o título quando fecha o seu texto com as expressões “perdas dos perdulários” e “saúde dos necessitados” – obesidade e fome, respectivamente. 9. Nesse campo, há boas experiências. Os programas Banco de Alimentos (Sesc-RJ) e Mesa São Paulo (Sesc-SP) arrecadam toneladas de alimentos descartados (mas de boa qualidade) que são distribuídos a escolas, a creches, a hospitais e a outras instituições para alimentar crianças e adultos carentes. São projetos como esses que precisam ser ampliados e diversificados. Temos que eliminar as perdas dos perdulários para garantir a saúde dos necessitados.Folha de São Paulo, 2.09.2001.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0909200106.htm

Após a realização desse tipo de leitura mais aprofundada, podemos partir para o que chamamos de: Plano das Ideias do texto

plano_obesidade_Antonio_Ermírio

Não sei se você concorda comigo, mas, na vida, tudo o que deve ser feito fica muito melhor se planejado. A redação não foge a essa regra. E, se aconteceu de, alguma vez, ao escrever, você ficou sem saber como terminar o seu texto,  pode ter certeza de que você não definiu, previamente, seu objetivo. Confie em mim, comece a exercitar seu plano. Não precisa ser exatamente o plano que sugerimos. Você pode adaptá-lo ao seu estilo de escritor; pode, também, criar o seu. Não importa o modelo, desde que você defina o objetivo de seu texto. De preferência, um apenas, já que há um limite de linhas para sua redação: melhor trabalhar um objetivo apenas, com boa argumentação, que se perder no meio do caminho…

Tema

 

Desperdício de comida

 

Delimitação do tema

Desperdício de comida e fome no Brasil

 

Objetivo do texto

O autor tenta provar que uma das possíveis causas da fome no Brasil é o desperdício de comida que fazem os brasileiros.

 

Banco de Ideias (ou argumentos)

Sistema de comida a quilo;

Fome de brasileiros embora haja produção suficiente de grãos;

Pesquisa realizada pelo jornal Folha de São Paulo;

Dados estatísticos de tamanho desperdício e fome em muitas regiões do Brasil;

Europeus agem de modo diferente: aproveitando tudo o que é sobra;

Lei de Lavoisier.

Conclusão

 

Propostas do autor:

  • · Educação alimentar, principalmente para as crianças e adolescente;
  • · Alteração na lei que regulamenta a respeito das sobras limpas de restaurantes, bufês e cozinhas industriais.

Para comprovar a efetividade de sua proposta, o autor apresenta dois projetos bem-sucedidos.

 PROPOSTA COM REDAÇÃO COMENTADA

Leia os textos “Da obesidade à fome”, de autoria de Antonio Ermírio de Moraes, para produzir um texto argumentativo sobre o tema: Sociedade do desperdício: lixo e luxo.

 

Título: Mais desperdício, mais miséria…

Autora: Fabianne de Souza Coelho Cavalcanti.

(Bureau de Ideias, dezembro 2001)

 


Comentários e                      Redação por  parágrafos
Já no título, Fabianne delimita seu tema. E mais, usa, criativamente, as  reticências, que podem ser interpretadas da seguinte maneira: o desperdício traz outras conseqüências além da miséria. Isso demonstra o domínio no tratamento das questões sociais, embora não tratadas no texto. Boa estratégia. Quem disse que não se podem usar reticências? Mais desperdício, mais miséria…
Define lixo, de acordo com o dicionário, para, depois, afirmar que tal definição precisa ser refinada já que nem tudo o que, normalmente, se joga fora deveria estar no lixo; com tanta miséria no país, por exemplo, é inconcebível desperdiçar comida; desvios em relação à norma culta podem ser encontrados quando a aluna utiliza letra maiúscula depois de dois-pontos, e começa período com “porém”. Lixo: O que se varre da casa, da rua, e se joga fora; entulho, coisa imprestável. Segundo o dicionário Aurélio, esta é a definição de lixo. Porém, no Brasil, nem tudo que se joga fora é imprestável, a grande parcela consumidora da população desperdiça 60% dos alimentos adquiridos, num país com os mais altos índices de concentração de renda e dos maiores níveis de miséria.

Fabianne levanta possíveis causas de  tamanho desperdício: uma histórica, e outra legal – a ausência de legislação punitiva para quem esbanja. Registro para a redação do primeiro período, em que ela inverte a ordem dos elementos, evitando uma estrutura sintática previsível: “A principal causa do desperdício é …” Aproveita para mostrar-se atualizada quando fecha o parágrafo falando da crise energética – também um desperdício. Parabéns pelo emprego adequado do pronome “isto”, em “somado a isto”. O último período poderia estar melhor conectado como os demais.O fato de o Brasil não ter participado diretamente de uma guerra mundial e ainda ser rico em recursos naturais é a principal causa do desperdício. Somado a isto, há falta de leis rígidas para punir as indústrias onde não há armazenamento correto de matérias-primas nem manutenção de equipamentos. Há pouco investimento em produtos eficientes e treinamento pessoal. O esbanjamento de energia elétrica junto à escassez de chuvas resultou na crise energética.

Continua alertando para a gravidade do problema tratado, agora analisado a partir do ponto de vista da economia do país. Já começa a apontar possíveis saídas para o problema quando inicia o segundo período com a conjunção SE.O desperdício só não é maior porque a inflação está estabilizada e as empresas foram obrigadas a eliminar custos para se tornarem mais competitivas.  Se o Brasil economizasse 6% do PIB, o dinheiro serviria para distribuir mais de 46 milhões de cestas básicas, o que diminuiria a fome a qual assola o país. Falta um gerenciamento na rotina brasileira para comprar somente produtos os quais serão consumidos.

Completa sua proposta para solucionar o problema: campanhas contra desperdício e a favor da reciclagem.Por isso, precisa ser feita uma grande campanha tanto contra o desperdício quanto a favor da reciclagem, a começar por um programa de educação das crianças e adolescentes. As leis devem ser mais severas, exigindo, por exemplo, que as sobras limpas de restaurantes se destinem a instituições carentes e maior controle no transporte e armazenamento de alimentos. É preciso eliminar as perdas dos perdulários para garantir a saúde dos necessitados.

Comentário geral: redação simples, bem escrita, com começo, meio e fim, períodos e parágrafos bem conectados. Apresenta boa progressão temática, sem a preocupação de empregar linguagem sofisticada, mas inserindo fatos da atualidade. A aluna alcança o seu objetivo na conclusão: apresenta evidências de que o desperdício traz prejuízos a todas as áreas, por isso deve ser evitado. Campanhas e leis ajudariam na solução desse grave problema.

Em um escore de 0 a 8 (como é o das universidades federal e rural de Pernambuco), Fabiane poderia alcançar nota entre 7,0 / 7,5. Por que “entre”? Embora as bancas examinadoras passem por um minucioso processo de treinamento, é inquestionável a existência de variações nas correções a depender de quem corrige. Muitos elementos estão em jogo aí: a formação do professor – se segue uma linha teórica mais “gramatical” ou mais “lingüística”; se busca analisar o todo do texto, ou se vai buscar “erros”, deslizes, no mais das vezes frutos de uma visão mais tradicional do ensino de português.

 

PLANO DAS IDEIAS DO TEXTO DE FABIANNE

plano_obesidade_Fabiane 

 

Tema

Delimitação do tema

Objetivo do texto

Banco de Idéias (ou argumentos)

Conclusão

 

Desperdício de comida Desperdício de comida e fome no Brasil. O autor tenta provar que desperdício é um crime no Brasil. Nem tudo o que se joga fora é lixo.

Razões históricas e ausência de leis que punam podem explicar o desperdício.

Só há algum tipo de preocupação em não desperdiçar por razões de controle dos gastos financeiros.Propostas do autor:

  • campanha contra o desperdício;
  • leis mais rigorosas quanto ao desperdício e quanto à regulamentação das sobras limpas de restaurantes, bufês e cozinhas industriais.

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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