O tablet de toda a família | Vida Urbana | Diario de Pernambuco – O mais antigo jornal em circulação na América Latina

Vale a pena ler e refletir sobre a chegada dos tablets nas escolas em reportagem publicada no dia 9 de setembro do Diário de Pernambuco.

O tablet de toda a família Equipamentos distribuídos para alunos da rede estadual melhoram acesso à informação em seus lares

Publicação: 09/09/2012 03:00

Amanda se reveza<br />
com o pai André e<br />
a mãe Valéria no<br />
uso do computador (TERESA MAIA/DP/D.A.PRESS)
Amanda se reveza com o pai André e a mãe Valéria no uso do computador

André, 44 anos, descobriu no tablet da filha que podia checar as contas do banco, de água e de luz à distância. Valéria, 41, esposa dele, viu no equipamento a oportunidade de tirar dúvidas sobre bulas de remédio e ler as lições da escola bíblica, quando a filha não está fazendo pesquisas escolares. Há quase dois meses essa é a rotina na casa de Amanda Oliveira Figueiredo Nogueira, 17, que recebeu o computador por cursar o terceiro ano do ensino médio da rede estadual. “O acesso à internet ficou mais fácil na minha casa depois de eu receber o tablet”, disse Amanda. Não apenas facilitou o acesso, como tem mudado comportamentos dos pais, fenômeno que estudantes e professores começaram a perceber.

A costureira Ana Cláudia, mãe de Camila, está conquistando mais clientes (JAILSON DA PAZ/DP/D.A.PRESS)
A costureira Ana Cláudia, mãe de Camila, está conquistando mais clientes

Entre os motivos dessas mudanças, acreditam André e Valéria, está a facilidade de se deslocar com o equipamento. “Onde a gente estiver pode ligá-lo e ver qualquer coisa”, comentou o segurança. Isso é indiscutível. Mas também conta a questão financeira. Muitas famílias nunca puderam comprar um computador. Outros lares, como o de Amanda, em Nova Descoberta (Recife), possuíam um equipamento usado prioritariamente para estudos dos filhos. Amanda, matriculada na escola Ageu Magalhães, em Casa Amarela, tem um irmão universitário e, com a demanda dos estudantes, restaria pouco tempo para os pais usarem um computador de mesa.

Dayana ajuda a mãe Marleide quando ela tem dificuldade com os softwares (TERESA MAIA/DP/D.A.PRESS)
Dayana ajuda a mãe Marleide quando ela tem dificuldade com os softwares

Na casa de Dayana Mendes de Oliveira, 17, em Olinda,“tinha e não tinha” computador. O equipamento está quebrado há semanas e o tablet tornou-se a única porta para o mundo virtual. “Dá para estudar e minha mãe olhar as coisas que gosta”, afirmou. A mãe de Dayana, a funcionária pública Marleide Mendes Correia, costuma navegar por páginas de instituições de ensino em busca de cursos, e por sites noticiosos. “As coisas são mais fáceis”, disse Marleide. Quando perde-se nos caminhos eletrônicos, pede ajuda à filha, aluna da Escola Luiz Delgado, no Centro do Recife.

Os reflexos do que acontece nas casas dos alunos aos poucos vão sendo percebidos pelos professsores e gestores de escolas. “Notamos, desde o momento da entrega dos tablets, um espírito de partilha entre pais e filhos”, contou a diretora da Escola Ageu Magalhães, Maria Antônia de Freitas Lima. A rotina na casa de Camila Medeiros, 16, comprova isso. Desde que recebeu o tablet, a estudante reveza o uso do equipamento com a mãe, a costureira Ana Cláudia Sousa Gomes, 40. “Se não estou estudando e ela precisa, deixo que uso”. Entre os acessos à internet, Ana Cláudia descobriu ser possível divulgar o ateliê. Criou uma conta em um site de busca, o que permitiu divulgar o endereço do negócio com mapas. A propaganda levou os clientes a localizarem com mais facilidade o negócio, na Encruzilhada, e encheu Camila de orgulho. Até agora, 58 mil alunos do segundo e do terceiro anos do ensino médio receberam tablets em Pernambuco.

Nova rotina na escola

Publicação: 09/09/2012 03:00

Estudantes estão mais envolvidos com os conteúdos (ALCIONE FERREIRA DPD.A PRESS)
Estudantes estão mais envolvidos com os conteúdos

As mudanças propiciadas pelo uso do tablet também podem ser nitidamente notadas na escola. Desde julho, quando o estado começou a distribuir os computadores, os intervalos entre as aulas ficaram mais silenciosos e os estudantes passaram a interagir mais com os professores. “Estamos atravessando um momento de adaptação”, avaliou a professora Marinalda Ramos, da Escola Ageu Magalhães, em Casa Amarela.

Na unidade, é comum encontrar estudantes sempre ocupados com tarefas escolares ou atualizando as redes sociais. Isso porque, segundo as amigas Camila Medeiros e Amanda Nogueira, o tempo é valioso. Elas têm pressa. Amanda quer fazer vestibular para direito neste ano. “Vai ser por experiência, mas quero fazer boa prova”, adiantou. As duas cursam o segundo ano do ensino médio.

As mudanças eram esperadas. “Estudos apontavam para isso”, disse Ana Selva, secretária executiva de Desenvolvimento da Educação da Secretaria Estadual de Educação. Os tablets, segundo ela, ampliaram as possibilidades de pesquisa e o acesso a serviços, tanto para os estudantes quanto para os pais de alunos. “É uma inclusão digital que se estende para além dos muros da escola”, definiu. Nas unidades de ensino, os tablets vêm sendo usados como suporte para o software Educandos, que reúne os conteúdos de praticamente todas as disciplinas, exceto sociologia, educação física e língua estrangeira. E também como fonte de pesquisa graças à internet.

O tablet de toda a família | Vida Urbana | Diario de Pernambuco – O mais antigo jornal em circulação na América Latina.

Fez-me lembrar de um texto que escrevi em 2000 e publiquei em 2011 no livro APRENDIZ DE PROFESSORA.

A escola morreu! Viva a Internet![y1]   

 Frequentemente pode-se ler, em jornais e revistas semanais, a respeito das vantagens proporcionadas pela Internet. A última dessas matérias está veiculada na revista “Isto é”, no. 1593 de 12 de abril de 2000. Lá, entre várias opiniões sobre a utilidade dessa Rede em nas vidas das pessoas, lê- se que “Mas é na área de educação que os benefícios da rede são mais festejados”. A comprovação disto vem em seguida, na fala do professor Litto, coordenador da Escola do Futuro da USP. Segundo ele, uma Enfermeira, em um Congresso de Educação no Canadá, declarou ter conseguido formar-se através de um curso à distância. Além desse exemplo, a matéria fornece outros, inclusive o da Escola Pueri Domus, em São Paulo, onde o computador foi inserido no currículo dos estudantes a partir dos dois anos de idade (?) para melhorar a aprendizagem dos alunos; ideias reforçadas em legenda inferior da mesma página: “Escolas inserem computador no currículo e alunos aprendem mais no vai-e-vem de ideias da rede que nas salas de aula”. Muitas vantagens e apenas uma possível crítica, de um senhor chamado Don Tapscott (sem qualquer referência de quem seja ele): a Internet pode nunca chegar às camadas mais baixas da população, “aumentando a distância entre ricos e pobres, entre os que têm ferramentas para crescer no mundo da informação e os que nem sequer o compreendem” (p. 58). Opinião semelhante à publicada no Diário de Pernambuco (2/04/2000): “Recife tem 2,1 milhões de excluídos digitais – 84% da população

            Sem dúvida, o assunto é atual e desperta polêmica. Imagine-se uma aprendizagem livre dos muros das escolas e independente da figura do professor… Liberdade total para escolher a hora e o lugar da aprendizagem… Quem não se sente atraído por essa proposta? Por outro lado, qual professor não entra em pânico ao imaginar-se inútil e desempregado… Principalmente, quando se constata a atual crise por que passa a nossa profissão.[y2] 

            Há muito pesquiso sobre utilização da Informática nas escolas, experimentando o computador nas minhas aulas de Português do Colégio de Aplicação, ministrando a disciplina de Ensino de Línguas e Novas Tecnologias da Informação em cursos de Pós-graduação na UFPE e UFPB e oferecendo cursos de extensão a profissionais da área. E uma pergunta sempre surge quando se fala em computador: ele vai substituir o professor? Essa “ameaça” , de certo modo, acaba sendo alimentada pela mídia. Segundo esta, agora quem quer aprender deve usar a Internet, caso contrário ficará à margem desse processo de “modernização” (?)

            Assim, como já discuti em outro artigo[1], as escolas correm para comprar computadores, já que os pais – modernos(?) – acreditam estar oferecendo o melhor ensino quando matriculam seu filhos nesses estabelecimentos informatizados. E mais: quem não tem um provedor nem acesso a rede está ultrapassado segundo as opiniões correntes. É a camisa de força da Internet.

            Esquece-se de que a questão principal a ser discutida é o modo como essa Informática vem sendo implantada nas escolas[y3] . Usar computador para passar a limpo textos escritos a mão, ou navegar na Internet – muitas vezes para selecionar, copiar e colar informações – ou bater papo nos “Mircs da vida” não garante essa tal aprendizagem tão propalada. Quando muito alguma informação, mas dificilmente aprendizagem e, mais raro ainda, a construção do saber.

            Recentemente, dentro do Projeto Virtus (www.virtus.ufpe.br), iniciei uma experiência de utilização de ambiente virtual para proporcionar situações de aprendizagem a meus alunos do 3º ano do Ensino Médio. Com certeza, ainda estamos no início dos trabalhos e muito ainda precisa ser assimilado, discutido e avaliado[y4] . Mas, uma questão pode já ser levantada: no momento em que a atividade era o bate-papo a respeito do livro lido – Dom Casmurro, de Machado de Assis – e havia uma proposta de tema para discussão – A infidelidade na vida real e na literatura – os alunos limitaram-se a escrever(?) sem se preocuparem com o compromisso da aprendizagem. Apenas nos momentos em que intervi como participante do bate-papo a direção das conversas tendeu para o debate proposto. No geral, as conversas limitaram-se a brincadeiras descomprometidas e, em certos momentos, até descambando para brincadeiras de mau gosto – uma conversa sem muito assunto, característica dos canais de bate-papo frequentado pelos jovens. Material  interessante para pesquisas linguísticas mas longe de ser considerado aprendizagem[y5] .

            Dessa forma, insisto na questão: de que modo pode-se introduzir a Internet como ferramenta nas atividades de ensino-aprendizagem[y6] ? Concordo que existem experiências interessantes nessa área – o projeto Kidlink[y7]  é um deles[y8] . Mas, daí aceitar como verdadeiras as afirmações de que a Internet é um espaço especial de aprendizagem no presente e no futuro, a distância é grande. Experimentos devem ser feitos, discutidos e avaliados antes que – como afirmei no outro artigo – toda essa tecnologia seja substituída por outra “mais moderna”… quem sabe o livro virtual ou e-livro[y9]  que já chegou ao mercado.


[1] Os computadores chegaram. E agora, professor? http://www.moderna.com.br  – em março de 1998

http://www.aprendiz.com.br  –  5 a 11 de abril de 1998 http://www.cac.ufpe.br/~clipping – 1999


 [y1]Enfim, os computadores chegaram ao Colégio de Aplicação através de um projeto chamado Educom, coordenado pelo professor Paulo Gileno Cysneiros. A sala onde funcionava o projeto – e todos os computadores, pré-históricos hoje, mas moderníssimos na década de 80 – ficava no primeiro andar do colégio. Pelas frestas podíamos ver as máquinas e as pessoas trabalhando. Muitos dos profissionais que passaram a atuar na área de Informática e Educação foram gerados no Educom, inclusive eu e minha amiga de sempre, a professora Teresa Emília Aquino, a primeira chefe do laboratório de informática do Colégio de Aplicação, inaugurado alguns anos depois.

 [y2]Ainda hoje, infelizmente, algumas pessoas pouco esclarecidas na área, quando pensam em Ensino à distância  é dessa forma…

 [y3]Paulo Gileno Cysneiros há muitos anos alerta para o perigo do que ele chama de  inovação conservadora – as máquinas são instaladas apenas para substituir outros equipamentos “ultrapassados”. Assim, ainda encontramos professores que declaram usar a Informática Educativa quando apenas levam seus alunos para o laboratório para passar a limpo texto escritos à mão…

 [y4]Constatei, por exemplo, que, no mínimo, é preciso um debatedor e um roteiro de atividades a serem seguidas para que se consiga algum resultado em  termos de aprendizagem.

 [y5]Isso sem falar nos outros perigos que os usuários correm ao frequentar determinados endereços na Internet.

 [y6]Algumas orientações a mais no livro “Guia do professor para a Internet”, de Ann Heide e Linda Stilborne. Porto Alegre, ArtMed, 2000.

Artigos interessantes no livro “Tecnologia educacional; política, histórias e propostas”, organizado por Edith Litwin. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.

 [y7]Para saber mais sobre o projeto, ler “Um modelo de escola aberta na Internet”, de Marisa Lucena. Rio de Janeiro, Brasport, 1997.

 [y8]Consultar a monografia  “A Internet como ferramenta pedagógica na produção de textos” , de  Marilza Moura Tavares dos Santos, apresentada como trabalho final do Curso de Especialização em Informática e Educação do Centro de Educação da UFPE.

 [y9]Consultar matéria no Caderno Mais da Folha de São Paulo de 9 de abril de 2000: “O livro morreu! Viva o e-livro!

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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