Os telhados da minha infância

Participo de uma Confraria de Leituras e hoje recebi, em um e-mail, o poema abaixo, escrito por Daniel Lima.

A casa

A casa onde nasci tinha um jeito risonho.
Tinha um quintal com mangueiras
e alguns pés de pitangas
e um pequeno jardim
de cravos e roseiras
e uma cisterna cheia de água de chuva
e um alpendre com redes sempre armadas.

Na frente, um portão velho que rangia
como se dissesse coisas tristes a quem por ele passava.
E dentro da casa onde nasci
um corredor sem fim corria não sei para onde
e nem sei por que corria
o corredor sem fim da casa onde nasci
nem sei para onde.

A casa onde nasci era feia, era linda.
Era antiga, era nova.
Era a casa: era ela, era eu
e me era.
Era úmida e escura,
mas sempre achei-a clara
e com o humano calor de um abraço amigo.

Úmido é o mundo
escuro é o mundo depois dela.
O mundo fora dela
é que é escuro e úmido.

A casa onde nasci tinha quartos e salas,
meu mundo, o impossível mundo de menino.
E havia retratos nas paredes,
horríveis retratos lindos
de gente que eu não conhecia
mas de quem tinha saudade.

E havia, no centro, uma mesa de jantar
onde com meus irmãos, eu jogava baralho,
e uma cozinha onde minha mãe descascava cebolas
e, aproveitando, chorava. (…)

Não a vejo diversa, envelhecida.
É a mesma casa de antes.
É como ao repassar fotografias
de antigos álbuns amarelecidos,
eu é que me sinto envelhecido
e que me fiz diverso..

Ou que me fez diverso a vida.
A casa onde nasci guardou carinhosamente
o tempo nas janelas.
As mangueiras continuam
e os cravos e roseiras
para longe fugiram, foram embora
mas ainda os sinto em mim,
ainda os vejo em meus olhos.

Eu é que me sinto velho e diferente
olhando-a assim revisitada agora,
antiga e tão menina.

In Poemas – Ed. Cepe, Recife 2011

 

E essas lembranças do poeta fizeram-me lembrar um texto que escrevi sobre a casa de minha infância no Rio de Janeiro.

Meu pai pediu que minha mãe o fotografasse fazendo pose com o violão; ficou tão empolgado que nem me viu ao seu lado toda desarrumada…

Nos telhados

 

Sempre morara ali: Rua Ivinheima, 334, Bento Ribeiro. Pelo menos, quando se lembrava de um início de vida, era a casa construída no centro do terreno que surgia em sua mente. Sabia-se recém-nascida em uma casa na Rua Conde de Agrolongo, na Penha, mas de lá não havia lembrança alguma.

Aos dois anos passara a ser a dona do quintal daquela casa. Dona de tudo – do jardim, cuidado pela Vó Rosa, mãe de seu pai; dos fundos, onde a roupa coarava e, depois, nas cordas, secava ao sol, vento (e, também chuva. Nesses momentos, era uma grande correria para tirar tudo do varal…). Entretanto, o seu lugar secreto era o telhado da casa. Punha uma escada na lateral e subia para o seu reino. Lá era o único espaço da casa onde podia ficar sozinha, debaixo da sombra da goiabeira, da mangueira, sentada na caixa d’água.

Nem se importava se a casa era pequena para seis pessoas – seu pai, sua mãe, sua avó paterna, os dois irmãos. O quarto dividia com a avó, enquanto seus irmãos dormiam no chão da sala em colchonetes…

Por isso, criara o seu reino…

De vez em quando, os gatos serviam de súditos. Ou alguma das gatas paria no forro da casa.

Ninguém atrapalhava – a mãe, sempre ocupada limpando tudo ou fazendo comida; a avó, distraída passando roupa, cuidando do jardim ou lendo (maravilhosas histórias que encantavam as noites de breu, sem energia elétrica: “Caio ou não caio?” era a história preferida das crianças: os braços e as pernas que visualizavam iam caindo do teto da casa mal – assombrada …). O irmão caçula era muito pequeno, um bebê; e o outro tinha medo de altura. Daí, o reino estava protegido. Os gatos eram bem-vindos – representavam, embora ela não fosse ainda muito nova para entender isso, uma liberdade de ir e vir,ainda adormecida no íntimo daquela menina de  8 anos.

Claro que a mãe brigava com aquela mania que ela tinha de ficar horas sozinha no telhado – isso é lá coisa pra uma menina! E se você quebrar as telhas? A preocupação era que ela quebrasse as telhas e provocasse goteiras no telheiro, justo onde ficava o tanque e as roupas que precisavam secar apesar da chuva. Mas nada era problema praquela menina… rapidamente aprendeu a caminhar apoiando o peso do corpo nos caibros e não no meio da telhas. Enfim, não seria qualquer empecilho a atrapalhar as suas horas de liberdade.

O bairro era muito diferente do que é hoje. Vizinhos de longa data, casas com quintal, rua de terra em um clima de camaradagem e cortesia. No verão, a alegria era brincar de pique até tarde, ou andar de bicicleta. Se alguém fazia uma comida gostosa, mandava um pouco para o vizinho; se a mangueira lá da casa enchia na época da safra, todos da rua recebiam frutas até acabarem as mangas. E o pé de tamarindo, altivo? Era a alegria de todos.

Ynah de Souza Nascimento – 6/04/2005

 

Meu pai nem sabia que muitos anos depois eu o fotografaria na mesma varanda, agora com um livro meu nas mãos… O Aprendiz de Professora.

 

 

 

 

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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