Segue um dos capítulos do meu livro APRENDIZ DE PROFESSORA. Nele, registro emoções vividas por mim desde 1976, ano em que comecei a dar aulas como professora concursada do Rio de Janeiro.

 

Iniciei, oficialmente, minhas atividades docentes no ano de 1976, na Escola Estadual Caetano Belloni, no município de São João de Meriti, baixada fluminense. Exatamente em 16 de junho, mediante um concurso público, comecei a dar aulas para oito turmas de 5ª série. Quem já ouviu falar dessa região, sabe como são precárias as condições de vida das pessoas que lá vivem. E o espaço em que se localiza a escola não é diferente. A maioria da população, oriunda da região nordestina do Brasil, aglomera-se em favelas, vivendo todo o tipo de dificuldade. As injustiças sociais são o “feijão-com-arroz” dessas pessoas. A violência é sua mais constante companheira[y1] .

Recebi uma educação modesta – afinal, meu pai, o único a trabalhar, era sargento da Marinha e sustentava uma família com seis pessoas. Nunca passamos fome ou algum tipo de privação, embora eu tenha trabalhado para poder cursar a Faculdade de Letras da UFRJ – na época, funcionando na Avenida Chile em um prédio que chamávamos de “barracão”… Claro que eu ficava invejando as vitrines com roupas bonitas, sem poder comprá-las e, durante um bom tempo, meu sonho de consumo na escola era merendar um cachorro-quente… Mas, fome eu conheci nessa escola. Era com o olhar faminto que os alunos chegavam à escola. Tanto que a merenda era servida antes das aulas, para que os alunos pudessem prestar atenção às aulas…[y2]

Alunos e escola carentes, mas professores dispostos a trabalhar e alunos desejosos de aprender. Tínhamos tudo para levar adiante um trabalho diferente. E assim eu fiz ao aceitar o convite do professor de História – Clóvis Correa – para participar da montagem da peça “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto. Nem precisa dizer que o texto tinha tudo a ver com a nossa comunidade – filhos, na sua maioria, de retirantes nordestinos que haviam abandonado suas terras em busca de vida melhor. A peça seria interpretada pelos alunos e apresentada às famílias no encerramento do ano. Havia um teatro na Igreja da Matriz de São João de Meriti e o padre emprestava o espaço para nossa “companhia”. [y3]

Eram muitos ensaios, claro que fora do horário de aula. E um dia eu escutei uma “pérola” de uma colega que dava aulas na 2ª série. Ela me perguntou:

– Quantos anos você tem de magistério?

Envergonhada de dizer que não tinha nem um ano, eu respondi:

– Quase um ano!

E ela, imediatamente, acrescentou:

– Quero ver se quando você tiver 10 anos de sala de aula, como eu, se você ainda vai inventar novidades para os alunos…

Não me lembro do nome da colega, mas nunca me esqueci do seu comentário. Quando cheguei em casa, naquele dia, chorei escondido no quarto, apavorada, com medo de me tornar, no futuro, igual àquela colega. Mas, o tempo passou: isso aconteceu em 1976… Felizmente, minha vida profissional seguiu caminhos bem diferentes do que previa aquela professora. Atuei em diferentes áreas – sala de aula, pesquisas, assessorias, produção de material didático impresso e, recentemente, também elaborando aulas digitais. Nada pessoal contra quem insiste em ser professor ou professora sem ter paixão pelo que faz; satisfeito(a) em guardar seus cadernos e planos de aula ano após ano… sempre repetindo velhos procedimentos. No entanto, o episódio serviu para definir o perfil de professora que eu seguiria nos anos seguintes: a professora “inventadora de moda”.

Este livro foi uma das maneiras que encontrei para homenagear àqueles educadores que – independente do lugar, salário e experiência profissional – insistem em ser “inventadores de moda”. Graças a Deus! E são muitos!


 [y1]Quantas vezes, ao chegar para dar aulas, havia um cadáver próximo à escola… Juntinho do prédio da escola, o comércio era intenso porque funcionava um ponto de venda de drogas…. Entretanto, para surpresa de muitas pessoas, era lá nesse ponto que eu guardava meu fusquinha 69. E, diga-se de passagem, era muito bem tratada por todos que lá passavam o dia. Tinha até alguém para abrir o portão de madeira da casa quando eu chegava para guardar o carro. Quando alguém precisava ser levado ao pronto-socorro, eu era chamada para ajudar.

 [y2]A merendeira, apelidada carinhosamente de Maricota, cuidava dos alunos com um carinho especial. E guardava sempre alguma coisinha especial para mim porque sabia que eu saía da escola às 19 horas e ainda ia dar aulas no Centro da Cidade, em um curso para Secretária Executiva. Saía de lá às 22h30 minutos, junto com uma amiga – a Maria Isabel, ou simplesmente a Bebel Lobão – rumo a Rocha Miranda, subúrbio do Rio de Janeiro, em um fusquinha 69, o Diabólico. Tempos bons aqueles!

 [y3]A peça foi apresentada em dezembro e, apesar de muitas dificuldades, agradou a todos. Valeu!

Publicado em

APRENDIZ DE PROFESSORA; o aluno desarrumado e outras histórias. Recife, CEL Editora, 2011.

Vale a pena conferir a resenha do livro feita pela Revista Ciência Hoje On-line

http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/intervalo/2012/01/a-memoria-e-a-licao/?searchterm=Aprendiz

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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15 respostas para A professora inventadora de modas…

  1. ynahdesouza disse:

    Nesta semana, participando de uma reunião de capacitação de professores da rede pública de Pernambuco, fiquei muito feliz em constatar a seriedade com que se faz educação por aqui. Quando aqui cheguei em 1982, vinda do Rio, tentei trazer minha matrícula do estado do RJ para cá, mas fui desencorajada por uma professora do DERE que foi taxativa: minha filha, pra conseguir isso, só trazendo o cartão de um deputado… Graças a Deus, muitas coisas mudaram desde então. Pra melhor!

    • Paulo Costa Oliveira disse:

      Professora Ynah, boa tarde.
      Sou professor e estudei na década de 70 no Colégio Caetano Belloni, e gostaria de saber se você ainda tem contato com professores daquela época.
      Gostaria de contactar algumas de minhas professoras para agradecê-las por tudo.

      • ynahdesouza disse:

        Paulo, saí do Rio em 1980 para morar em Recife e não mantive contato a partir daí com meus colegas. Entretanto, recentemente reencontrei a diretora da escola, Dona Edna Coelho Neto, e o professora Clóvis Correia – todos no facebook. Procura por eles lá. Tenho notícias também do aluno Lindolfo Vieira, também no face. Abraços.

  2. eduardo costa disse:

    isso mesmo professora a grande maioria da minha familia , hoje mora no rio de janeiro por conta da imigração nordestina naquela epoca, 70 % da minha familia mora no rio de janeiro , muito obrigado pela atenção aos nordestinos, pois eles estão no rio de janeiro por pura necessidade.

  3. Deyse Almeida disse:

    Estou otimista com os investimentos feitos na Educação de Pernambuco nos últimos tempos, sou testemunha de escolas de condições sub humanas que hoje, oferecem pelo menos as mínimas condições de funcionamento. Claro que ainda estamos longe do padrão de qualidade já estabelecido, porém acredito que a sociedade irá colher bons frutos!

    • ynahdesouza disse:

      Deyse, como falamos em aula: precisamos escolher se queremos um olhar passadista ou prospectivo. Como sempre fui otimista, olho para frente e procuro planejar direitinho meus passos em direação ao meu objetivo. Abraços e obrigada pelo comentário.

  4. Fatima Souza disse:

    Adorei o conteúdo do blog!!!!!

  5. Fatima Castello disse:

    Adoorei sua aula e a forma simple de passar suas experiências tão interessantes.Gostei muito do seu blog e fiquei encantada com seu relato de início de carreira.Bjs Fátima Castello

  6. Ana Maria Araújo disse:

    Existem muitos entraves na área de Educação que desacelera o processo, porem muitos que passam por essa historia de luta assim como eu, ainda acredita em resultados favoráveis.
    Foi um prazer enorme compartilhar consigo um assunto extremamente complexo pelo qual não temos acesso aprofundado (Redes Públicas na Educação), mas a semente foi plantada. um abraço.

  7. VIRGÍNIA DE OLIVEIRA SILVA disse:

    Olá, parabéns pelo seu trabalho. Também estudei na Fac. de Letras na Av. Chile e gostaria de saber se você possui fotos do nosso “Barracão”, caso tenha, adoraria poder recebê-las por e-mail! Grata pela atenção.

    • ynahdesouza disse:

      Virginia, infelizmente, do barracão eu não tenho. E lamento profundamente. Tenho apenas algumas que tirei com as minhas colegas de turma naquele espaço da entrada. Moro em Recife desde 1982 e frequentemente vou ao Rio. Quando passo pela frente do que foi nosso barracão, sinto um sentimento de nostalgia e de alegria por ter conseguido vencer a barreira de fazer uma faculdade pública, sendo pobre, fazendo um vestibular difícil e sem ter bolsas governamentais para auxiliar. Abraços afetuosos.

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