Do-in antropológico, ministro Grazziano e outras metáforas

DO-IN ANTROPOLÓGICO, MINISTRO GRAZZIAN E OUTRAS METÁFORAS

Professora Ynah de Souza

            Operário perde a cabeça e vira uma fera quando gerente anunciou que a fábrica cortaria funcionários para enxugar a folha de pagamentos. Dificilmente, algum falante do Português teria dificuldades em entender essa manchete – afinal, o país não consegue mesmo sair da recessão. No entanto, uma análise lingüística dessa frase, revelaria aspectos interessantes do uso da língua. Senão, vejamos. O que significa “perder a cabeça”, “virar uma fera”, “cortar funcionários” e “enxugar uma folha de pagamentos” ?  Somente lançando mão de uma leitura metafórica, é possível alcançar o significado dessas expressões, que, se “traduzidas” poderiam gerar a seguinte notícia: Operário, privado de razão, encoleriza-se quando o gerente anunciou que a fábrica demitiria funcionários para reduzir despesas com salários. Convenhamos, a versão original é infinitamente superior…

Que estratégia faz, da primeira versão da manchete, um melhor texto? O emprego da metáfora, uma figura de linguagem – “desvio das normas estritas de linguagem, com fins expressivos” (Sacconi, Luiz Antonio. Nossa gramática. São Paulo, Atual, 1999, p. 492). Nas aulas de Português, geralmente, essa figura é apresentada, aos alunos, como recurso literário, o que acaba levando alguns alunos a concluir, erradamente, que só se usa metáfora na literatura. “Emprego de palavra fora do seu sentido normal, por efeito de analogia (comparação)” (Sacconi, Luiz Antonio. op cit., p. 492) é a definição mais encontrada nas gramáticas para essa figura de linguagem. No entanto, o que se entende como “sentido normal” da palavra…

Entretanto, há outras razões para explicar o uso freqüente de metáforas. A etimologia da palavra pode ajudar nessa explicação. A soma de “meta” – mudar – com “pherein” – carregar, portar – pode explicar melhor a força da metáfora: muito mais que uma simples figura de linguagem, ela permite transportar a característica de um objeto para outro, provocando uma transformação; além disso, segundo alguns pesquisadores, além de funcionar como elemento de persuasão – a publicidade é um bom exemplo disso – ela facilita a compreensão do que se apresenta como novo: assim, diante da novidade, defendem alguns, buscamos, na familiaridade, o caminho da apreensão do novo conhecimento.

Assim, o uso de uma linguagem que quebra as expectativas do leitor ou ouvinte, ao introduzir analogias o mais próximas possível do universo desse interlocutor, acaba por se tornar um instrumento poderoso de persuasão. E explica-se: ao aproximar elementos parecidos, tornando-os verdadeiros, acaba-se transformando os outros aspectos envolvidos na interação também verdadeiros. A metáfora acaba, dessa maneira, transformando-se em poderoso instrumento de convencimento. Através dela, conquista-se a garantia de que se está transmitindo um conhecimento de forma compreensível e convincente, apesar de simbólica, sem prejuízo das “verdades” defendidas.

Até que ponto o discurso político dos últimos meses ratifica essas idéias. Vejamos alguns exemplos coletados na imprensa.

  1. “Como o Brasil está na UTI, eu coloquei um médico para ser ministro da Fazenda. (Luiz Inácio Lula da Silva, presidente eleito do Brasil, referindo-se a Antonio Palocci, seu futuro ministro da Fazenda, que é médico. Veja, 18.12.2002)”. Fica muito difícil apresentar argumento contrário a tal afirmação expressa em uma linguagem dessas. Como discordar da indicação de um médico nesse contexto?
  2. “Nós queremos um projeto de casamento. E não apenas “ficar” . Carlos Lupi, vice-presidente do PDT, afirmando que o partido só entra no ministério de Lula se tiver uma pasta importante”. Veja, 18.12.2002. Em vez de cobrar, diretamente do Presidente, cargos importantes, provavelmente negociados em época de campanha, o deputado utiliza a metáfora do casamento. Dessa forma, fica mais difícil julgar sua atitude, contrariá-lo ou até mesmo acusá-lo de chantagem política.
  3. “Vírus da inflação ameaça o país, diz Lula”. Jornal do Brasil, 23.02.2003. Que poderes um presidente poderá ter para brigar com um “vírus”? Como garantiria ele a vitória na luta contra a inflação? Afinal, vírus é vírus…
  4. “O Governo utilizou a estratégia de assoprar para depois morder. João Batista Oliveira, deputado federal (PT/PA), sobre o corte de R$14 milhões do Orçamento”.

Diário de Pernambuco, 16.02.2003. Como um deputado do PT – partido do também presidente eleito – poderia apontar comportamento duplo do presidente – um, antes da eleição; outro, após ser eleito? Ele busca sua salvação na metáfora…

  1. “Quando eu nasci, o leite de minha mãe secou. Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, salientando que depois de lutar tanto para ser presidente, não tem o direito de errar”. Diário de Pernambuco, 16.02.2003.  Mas, se ele errar, poderá colocar a culpa no leite que secou…
  2. “Lula: 2003 é o ano do angu quente (manchete). Presidente diz que a situação é grave (subtítulo). Brasília – Este ano é um ano de comer angu quente. E não vamos nem comer pelas beiradas – disse Lula, segundo relatou o senador Marcelo Crivella (PL-RJ)”. (Jornal do Brasil, 28.02.2003) Aqui, a metáfora foi construída a partir de um referencial – o angu – bem próximo do público a que se destina – os brasileiros. Além disso, devemos observar a inteligente utilização da forma verbal na primeira pessoa do plural – “vamos” – que imprime ambigüidade à afirmação: quem, afinal, vai comer esse angu? Quem constitui o “nós”? Apenas os que fazem o governo? Ou também nós, brasileiros, vamos sofrer nesse ano de 2003?

Embora a lista seja extensa, apenas uma dessas metáforas fartamente empregadas no discurso político causou polêmica. E muita. Gilberto Gil, em seu discurso de posse no Ministério da Cultura, afirmou que seu ministério não atuaria apenas como uma caixa de repasse dos recursos públicos, mas pretendia intervir “para fazer uma espécie de “do-in” antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do país”. Que razões explicariam a quantidade de textos escritos na imprensa brasileira sobre esse tal de “do-in antropológico”? Sobre o discurso?

Talvez o estranhamento do que afirmou Gilberto Gil justifique-se pelo desconhecimento do que signifique “do-in” – terapia oriental de cura através de massagens em pontos vitais do corpo do paciente. Na construção dessa metáfora, a utilização de termos como “do-in” e “antropológico”, presentes apenas no vocabulário de brasileiros que não podem ser classificados como “povão”, pode ter sido um dos motivos da reação ao discurso já que, no processo de construção dessa figura, como já afirmamos antes, o referencial cultural empregado deve ser o mais próximo possível do público a que o texto se destina. No entanto, não descartamos a possibilidade de essa “inusitada” metáfora – e a polêmica que dela surgiu –  ter sido uma desculpa “real” para aqueles que discordaram da indicação de Gil para o Ministério. E não foram poucos…

Assim, como pudemos comprovar nesses exemplos, a metáfora é estratégia poderosa, tanto no dia-a-dia como em espaços privilegiados como o da política. Quem a utiliza, muitas vezes, além de “falar bonito” convence seu interlocutor e até impede polêmicas acerca do que se diz. Talvez se o Ministro Graziano, responsável pelo Projeto Fome Zero, no discurso que fez aos empresários paulistanos, tivesse vestido metaforicamente a sua afirmação não teria recebido tantas críticas. Em lugar, por exemplo, de afirmar que o projeto (Fome Zero) tem que funcionar bem no Nordeste para que os nordestinos não continuem indo para São Paulo e para que os sulistas não continuem a ter de andar de carro blindado, o ministro poderia ter declarado: Todos os brasileiros e, principalmente, os senhores empresários, cuja responsabilidade social no país é imensa, devem colaborar com o Projeto Fome Zero para evitar que tantos “Severinos” cheguem a São Paulo em busca de uma vida menos Severina. Pode ser que, com essa linguagem metafórica, emprestada do livro “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, o ministro ainda tivesse dificuldade em sensibilizar e, até mesmo, chocar sua seleta platéia. No entanto, com certeza, a metáfora poderia ter poupado Graziano – e o Projeto Fome Zero –  de tantas polêmicas…

Janeiro de 2004

Nota da autora:

Quem quiser saber mais sobre do-in, consultar:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Do-in

 

Sobre YNAH DE SOUZA NASCIMENTO

Professora de Língua Portuguesa, autora de livros didáticos.
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