Avaliação: salve-se quem quiser (puder) mudar…

(Este é um dos textos que escrevi enquanto professora no Colégio de Aplicação da UFPE)

Final de etapa.

Habituada a solicitar da sétima série, ao término de alguns trabalhos, a autoavaliação e admirando, feliz, a seriedade com que os alunos se dão nota, resolvi solicitar o mesmo da turma do terceiro ano do segundo Grau. Durante a etapa realizamos debates sobre temas escolhidos pela turma e registrados em redações, corrigidas através de códigos pré-estabelecidos e reescritas, com consulta a dicionários e gramáticas. Estas atividades foram apontadas, ao início da etapa, como pontos a considerar na avaliação da atividade de redação.

Pedi a autoavaliação aos alunos e, depois de muitos anos como professora, a atitude da turma conseguiu me deixar perplexa:

– Ynah, a gente não quer se dar nota não!

– Quem tem competência pra pôr nota é o professor.

– Ynah, quem sabe avaliar é você. Veja se eu fiz todas as tarefas e me dou nota 9 e meu colega não fez nada e também se dá nota 9, acho que fico prejudicado – meu nove é tão nove quanto dele!

Consegui ficar muda diante da turma (o que é raríssimo diante de minha fama de tagarela…). A sensação que senti era a de ocupar um espaço (na “cabeça” de meus alunos) que jamais eu poderia supor (nem nunca pensei em preencher). Alunos e eu falávamos língua diferente – eu os via ( e os julgava) através de um prisma; eles me viam (e me rotulavam) de forma diferente do que penso ser (ou estar sendo…).

Apesar de não ter vindo acompanhando, de outros anos, os alunos dessa turma, pelas referências de outros professores, pela participação da turma em momentos de decisão do Colégio e pelo nível de crítica que os alunos me apresentavam em aula, formei um perfil da turma e passei a interagir com os alunos a partir desse perfil.

Quando propus a autoavaliação, me vi, frente a frente, com a imagem que os alunos faziam de mim – e fiquei apavorada… Foi como se eu acordasse de manhã me olhasse no espelho e visse outra imagem que não a minha…

Saí da aula pensativa. Os alunos fecharam a conversa sobre a autoavaliação e não houve jogo de cintura que os fizesse discutir o assunto. O que seria avaliação? O que seria, para os alunos e para mim, avaliação? Teríamos o mesmo conceito? A partir de que pressupostos formei meu conceito de avaliação? E os alunos, quais seus pressupostos, como veem o avaliar? (se eles não quiseram nem discutir seus progressos e dificuldades – avaliar – será que esta atividade, no dia-a-dia deles tem outro nome? Ou será que, na vida, eles não avaliam suas atitudes?)

Busquei o conceito de avaliação no Aurélio. Entre sinônimos que lá encontrei, os verbos: “determinar a valia ou o valor”, “apreciar”, “reconhecer a grandeza”, “ajuizar”, etc… E fiquei assustada em assumir, sozinha, tanta responsabilidade creditada (imposta?) a mim, pelos alunos: “quem sabe avaliar é você”, “é o professor que tem competência (?) para dar nota…”

Quando e como recebi o monopólio de ser avaliadora? Quem tem o poder de me vestir tal “camisa de força”? Parece que a atitude dos meus alunos confirma que, na escola, “os papéis estão previamente determinados; o aluno cala, escuta, obedece, é julgado” (HARPER 1985, p. 48); “ o professor sabe, ordena, decide, julga, anota, pune” (idem, p.49). Mas, alguém disse isto aos alunos?

Nós, professores, lemos sobre métodos, técnicas etc. e tal; será que vivenciamos essas leituras na prática da sala de aula? (ou será que nosso discurso pedagógico e nossa prática são compartimentos estanques?) Se vivenciamos, como surgiu, em nosso aluno, a ideia de que quem sabe avaliar é o professor? Se ele pensa assim é porque tem vivenciado assim, no dia-a-dia escolar sob, a influência do professor… “Os professores têm dúvida, uma influência direta sobre os alunos, a partir de sua personalidade, sua atitude (…) Exata ação pode, aliás, exercer-se sem que o professor perceba” (HARPER, 1985, p. 68).

E o que dizer ao meu aluno que se preocupa se o seu nove é igual ao nove do colega?

Nossos alunos são bem espertos para cedo saberem e sentirem, na pele, um dos valores que a escola camufla – o “aprendizado de cada um por si” (HARPER,1985 p. 83) (e o professor contra todos). Meu aluno procura se virar como pode e imagina, repetindo fórmulas decoradas ou copiando-as do livro, do caderno ou de seu colega. E a escola estimula isto porque seu objetivo é “só promover aquela minoria de alunos que ela considera mais espertos e capazes de aprender” (?) (CECCON,1982, p. 73). Aliás, não poderia ser diferente (?) já que a escola faz parte dessa sociedade injusta e desigual.

Mas, nós – professores – somos a escola. E meu aluno, quando se nega a se autoavaliar, me põe cara a cara com a competição da vida – vence quem é o melhor (nos padrões que a gente bem conhece..). Quando ele me critica porque eu desejo levar em conta sua avaliação é como se ele me dissesse: o juiz da partida é você, não a gente … Nós jogamos; você aponta o campeão. Que história é essa de passar o apito pra gente…

E esse campeão, será o aluno mais crítico, mais questionador?

ABRAMOVITH (1985), no artigo “Tadinho do primeiro da classe”, começa a discorrer sobre as vantagens de ser o primeiro e prossegue questionando o eixo ensinar / aprender / avaliar. Ela afirma que “nesta imbecil maratona escolar, ganha quem chega em primeiro lugar, conforme as regras deste poder… E perde quem for capaz de duvidar, de questionar, de repropor, de reanalisar, de angular por outra ótica de inverter um raciocínio, de inventar uma nova solução…” (p.26).

Prossegue ela: “o aluno que se autoavalia, que é levado a ter um pensamento crítico permanentemente aguçado e atilado, se classifica como primeiro da classe? (Não, na minha experiência…)” (p.27) (nem na nossa, podemos completar…)

A autora propõe uma avaliação que inclua o julgamento do aluno; “ por que não acreditar na capacidade real de apreciação, de tirocínio, de julgamento dos alunos (de qualquer idade) e fazer com que se autoavaliem…? (p. 27)

Mas voltamos a minha proposta inicial à turma: a autoavaliação! Quero centrar meu ensino no aluno, mas ele se nega. O que fazer? Sei que ele tem seus motivos: há uma imagem de professor que me persegue (e é engraçado porque, no início da carreira, era eu quem perseguia o modelo ideal…). A imagem que os alunos têm, do professor, é muito poderosa e muito restrita, ao mesmo tempo. Um exemplo da limitação da imagem que os alunos têm do professor de Português, ocorreu comigo outro dia. Ao término  de uma aula expositiva de gramática, onde após questionamentos meus sobre o dogmatismo das noções que a gramática tradicional apresenta, ao final da aula uma aluna disse:

– Ynah, hoje eu gostei tanto da aula!

(O que, em outras palavras, jogava por terra todas as tentativas que eu fizera na aula (e vinha fazendo anteriormente) de levar os alunos a um posicionamento crítico em relação ao que lhes era apresentado).

HARPER (1985) indaga: “será que eles (professores) têm outra escolha individual além de submeter-se ou demitir-se?” (p.91)

Insistir ou desistir?

Ainda em HARPER, busco fechar meus questionamentos por ora. Nele, p. 100-103, ilustrações onde um sujeito constata que está tudo errado e que é preciso mudar; outro sujeito, então, lhe põe uma pedra na cabeça – o início da mudança – mas o peso é muito grande para um único indivíduo, ele cai, esmagado pela pedra, e pede socorro. Muitas pessoas correm em seu auxílio e, em grupo, conseguem partir a pedra, destruindo o “imutável”.

Termino, provisoriamente…

SOCORRO…

    • Publicado em Tópicos Educacionais. Centro de Educação, UFPE, v.5, nº 1/3.
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Roberto Carlos quase atrapalhou minha carreira como professora

Desde que me lembro na vida dou aulas. Primeiramente para os vizinhos do bairro – sempre havia alguém “pendurado” em notas, precisando de reforço. E todos já sabiam que a filha da dona Yara era estudiosa e dava aulas de casa. Sim, eu gostava de dar aulas, mas também era minha fonte de renda porque era jovem ainda, 14/15 anos, não tinha emprego e precisava ganhar dinheiro – geralmente é assim em famílias de origem humilde: assim que os filhos podem, sempre arrumam um jeito de ganhar um dinheirinho. E eu fazia milagres com o que ganhava. E gente pobre é honesta: nunca deixei de receber o trabalho feito.

Aos 15 anos entrei para o curso de formação de professores, na Escola Normal Carmela Dutra em Madureira. E continuei a dar minhas aulas no bairro de Bento Ribeiro, onde morava. Entretanto, quando ingressei na Faculdade de Letras da UFPE, aos 18 anos, fui logo convidada para dar aulas no curso noturno do Ginásio Nossa Senhora da Paz, que funcionava na Rua Tacaratu, 26, em Rocha Miranda[1].

nossa-senhora-da-paz_tacaratu

Fonte: https://www.facebook.com/Col%C3%A9gio-Nossa-Senhora-Da-Paz-798301836958497/

E foi lá que Roberto Carlos quase atrapalhou a minha vida profissional.

Fui convidada para dar aulas de Português, em uma época que isso significava lutar para que os alunos aprendessem conteúdos gramaticais, principalmente análise sintática. Era na década de 70 e, naquele momento, a concepção de linguagem que sustentava o ensino de língua portuguesa era a de que “linguagem é comunicação”[2], então os alunos estudavam conteúdo do tipo “emissor, mensagem, receptor, código” – a conhecida Teoria da Comunicação. Entretanto, embora se afirmasse a importância de se usar a língua em situações de comunicação, lembremo-nos que, no Brasil, estávamos em plena vigência do governo militar, com os órgãos de censura funcionando a pleno vapor – então, era uma “comunicação” que desconsiderava a finalidade do texto, o seu contexto de circulação, seus interlocutores, sua estrutura e linguagem adequada. O importante era mandar uma mensagem para que o receptor decodificasse… Só na década de 80, começou a aparecer uma nova concepção de linguagem como “inter-ação”, inspirada na teoria dos gêneros textuais. É dessa década a produção e divulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais em Língua Portuguesa (PCN), que passaram a orientar as atividades de ensino (e, a partir daí, também, aprendizagem) de língua portuguesa.

Então, na década de 70, a competência do professor de língua portuguesa era medida pelo seu domínio gramatical. E eu me lembro muito das aulas que tive que o professor Abraão, nos tempos do Carmela Dutra, em que ficávamos horas analisando as funções sintáticas dos versos d´”Os Lusíadas”, de Camões. Tenho certeza de que muitos colegas ficaram odiando Camões porque não tiveram a oportunidade que eu tive, na faculdade de letras, de cursar um semestre de Literatura Portuguesa para compreender não somente a importância da obra de Camões, mas de nossa herança literária portuguesa.

Considerando minhas experiências negativas nessa área de conteúdos gramaticais, quando assumi a turma da Escola Técnica, tentei fazer diferente como professora de Português. E, até hoje, agradeço a intuição de ter agido assim: em lugar de passar as aulas “brigando” para que meus alunos aprendessem (ou decorassem!) Gramática, investi na leitura, compreensão e interpretação de textos. Lamento não ter ainda, naquela época, a compreensão da importância em ampliar esse trabalho com as atividades de produção de texto[3]. Assim, eu já começara a definir outros rumos para minhas aulas, embora intuitivamente. Sabia que aqueles conteúdos gramaticais pouco ajudariam aos meus alunos – trabalhadores durante o dia e alunos no turno da noite – a melhorar suas competências como usuários da língua. Sabia, também, que essa minha decisão poderia custar tanto a demissão como críticas severas de “mudar” o conteúdo programático de português.

E que textos eu levava para a sala de aula? Todos que tratassem de tema interessante para os alunos, atualidades, e cuja linguagem não fosse complexa. Por isso, quando chegou a hora de elaborar a primeira prova da turma, não tive dúvidas em escolher o texto: uma letra de música famosa na época – “Detalhes”, de Roberto e Erasmo Carlos – e lançada em 1971 no álbum Roberto Carlos. Elaborei as questões de compreensão e interpretação; fiz a matriz da prova, que, na época era “rodada” no mimeógrafo a álcool, e fui convicta de que os alunos não teriam dificuldade em responder ao que eu pedia.

Mimeógrafo a álcool

mimeografo

Fonte: https://chamaescoteira.files.wordpress.com/2013/10/mimeografo.jpg, acesso em 29.05.2016.

Cheguei, entreguei a prova – constatei que, como acontecia naquela época, alguns alunos cheiravam o papel da prova por causa do álcool – e fiquei aguardando o final da aula. Não demorou muito para perceber que uma aluna estava com a cabeça baixa chorando. Sempre fui muito atenta para o emocional da sala de aula e, por isso, dirigi-me até a aluna para saber o que eu poderia fazer para ajudá-la. Ela explicou então que havia terminado um namoro e a música fazia com que ela sofresse ao lembrar do namorado. Perguntei se ela desejava sair um pouco, ir tomar uma água para acalmar o coração, mas ela disse que não era necessário.

Não demorou cinco minutos e a mesma situação se repetiu, agora com um aluno. E, para espanto meu, pude constatar que havia mais alunos e alunas chorando com a cabeça baixa. Motivo? “Não adianta nem tentar me esquecer, durante muito tempo em sua vida eu vou viver”.

Até hoje conto essa história, quando vou fazer alguma formação de professores na área de elaboração de itens de prova, ou quando estou dando aulas de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa, digo que agradeço a minha intuição na época: diante de tantas lágrimas, cancelei a prova, recolhi as folhas e marquei uma nova data de avaliação.

As muitas lições que aprendi esse evento, só mais tarde na minha formação profissional pude conferir teoricamente. Pude constatar, na prática, que um texto é muito mais do que a soma de palavras, que passam a ter significado a partir da ação do leitor, o sujeito que, ao estabelecer sua interação com o texto, constrói significados – nesse caso, resgatando experiências tristes vividas. Além disso, ao longo de minha trajetória como professora, cada vez que precisei escolher um texto para transformá-lo em material didático, considerava essa possibilidade de que meus leitores estabelecessem vínculos sentimentais com esse texto. Emoções que contribuem na leitura, interpretação e aprendizado em sala de aula.

Finalizando, Roberto e Erasmo Carlos quase atrapalharam minha trajetória profissional. E eles nem sabem disso… Se eu não escutasse minha “intuição pedagógica”, poderia ter ignorado as reações sentimentais de meus alunos, que passariam a ver o texto como um mero pretexto para a prova. Assim, mesmo que eu quisesse, não conseguiria esquecer essa experiência… Percebi naquele momento que, muitas vezes, são esses detalhes que compõem o perfil profissional de um professor. Eles podem ser pequenos, como os da música, mas, se bem incorporados, não vão sumir na longa estrada do tempo, mas durante muito e muito tempo em nossas vidas vão viver.

[1] Encontrei um grupo de ex-alunos desse colégio no Facebook – https://www.facebook.com/Col%C3%A9gio-Nossa-Senhora-Da-Paz-798301836958497/

[2] Para aprofundar essas concepções, é indicação obrigatória o livro que se tornou clássico na década de 80: GERALDI, J. W. O texto na sala de aula; leitura e produção. 2a ed. Cascavel, Assoeste, 1984

[3] As provas dos vestibulares da época eram de múltipla escolha e não havia a prova obrigatória de redação.

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O desafio de ressurgir das folhas

Ainda sou do tempo em que muito do que se aprendia na escola era através da memorização. Tarefa sempre muito custosa para mim, que nem tinha muita competência para decorar, mas tinha de sobra curiosidade para querer sempre saber além do estabelecido. Muitas dessas coisas se foram com o passar dos anos, mas algumas ficaram para sempre.

Outro dia me peguei lembrando da famosa pergunta e respectiva resposta: “Em quantas partes se divide uma planta? Raiz, caule, folhas, frutos, flores e sementes”. Estudei em uma boa escola particular no subúrbio de Rocha Miranda, o Curso Almeida Mello, onde tínhamos jardim e pomar, lugares que seriam um excelente local para aprender esse assunto. Mas, pergunta e resposta foram decoradas sem referência alguma às atividades que fazíamos durante as aulas de jardinagem: o objetivo? Fazer prova de Ciências.

Ainda me lembro: cada parte tinha sua função. A raiz, além de sustentar a planta, é a responsável pela retirada de água e sais minerais do solo; o caule, responsável pela sustentação da planta e por levar a água e sais minerais da raiz para as outras partes dela; as folhas, responsáveis pela transpiração, alimentação e respiração das plantas. (Alguém sempre perguntava: e planta respira, é?). E as flores, minha paixão durante toda a vida, elas são as responsáveis pelos frutos e sementes, que fazem surgir novas plantas.

Apesar de amar flores e de ter aprendido, com meus pais, a não arrancar flores e a cuidar das plantas, preciso reconhecer que nunca fui boa nessa área agrícola. Até hoje, quase não sei nome de flores e jamais plantei uma árvore (embora já tenha escrito livros e sido mãe de uma linda filha). Fico encantada quando visito a casa da Silvana, uma amiga que sabe tudo de plantas e flores, e que tem um jardim maravilhoso.

De planta mesmo, nos dias de hoje, só consigo identificar algumas árvores frutíferas que havia no quintal da minha casa – mangueira, goiabeira e tamarineira. De flores, guardo um carinho especial pela “boca de leão”, que minha avó cultivava no quintal da minha infância, e a magnólia da casa da Angélica, minha vizinha e amiga até hoje: minha memória olfativa desse perfume me acompanha até hoje. E, por sorte, no percurso que faço a pé de casa para a academia de ginástica posso sentir esse perfume em uma das calçadas.

Claro que não incluo nessa incompetência agrícola minha experiência em plantar couves no quintal de casa. A razão aqui era outra: claro que minha mãe se aproveitava das folhas para fazer couve à mineira e seu famoso caldo verde, receita do tio Rubens. Mas o objetivo era criar borboletas. Era uma emoção imensa acompanhar seu ciclo de vida. Melhor ainda era poder vê-las sair do casulo, transformadas em lindas borboletas. Quando aprendi na escola a tal da metamorfose, já havia vivenciado a experiência muitas vezes.

Assumindo meus conhecimentos limitados nesse “letramento” agrícola, descobri outras funções para as folhas de uma planta. Isso graças aos conhecimentos de Luiz Higa, um amigo peruano, descendente de japoneses e marido da Helena, massoterapeuta e instrutor de Tai-chi. Ele me ensinou e eu aprendi (em vez de decorar!) que uma planta nova pode surgir de uma folha. Ele me mostrou a folha de uma Suculenta que, em contato com a terra, estava brotando para surgir uma nova planta. Parentes dos cactos, essas plantas têm esse nome porque possuem raiz, talos ou folhas gordas e cheias de líquido. Essa adaptação lhes permite manter reservas do líquido durante períodos prolongados, e sobreviver em ambientes áridos e secos que para as outras plantas seriam inabitáveis.

Suculenta

Fonte da imagem: http://www.jardinaria.com.br/blog/2010/06/especies-de-suculentas/ 

Desde esse dia em que vi uma nova vida nascendo de uma folha, fiquei refletindo sobre a capacidade de resiliência das suculentas, que nascem prontas para enfrentar condições climáticas adversas, principalmente a carência de água e o calor do sol. Fiquei, principalmente, pensando nessa capacidade de fazer brotar uma nova vida de uma folha.

Essas reflexões sobre a capacidade de renascer não devem estar acontecendo à toa. Afinal, em breve entraremos no período de Quaresma, os quarenta dias de jejum, orações e penitências que antecedem o domingo de Páscoa ou Domingo da Ressureição de Jesus. Ele, que triunfa da morte para proclamar o poder e a misericórdia de Deus, para nos chamar a participar de Sua vida. Quem sabe poderemos aproveitar esses quarenta dias para fazer como as as lagartas que eu criava com a plantação de couve – e chegarmos à Páscoa como lindas borboletas. Ou, quem sabe, possamos também aprender com as suculentas a acumular água e nutrientes em nossas raízes, caules e folhas para, como elas, conseguirmos resistir às intempéries da vida. Mas isso ainda é pouco, até porque a maioria do povo brasileiro já vem isso a vida toda.

Devemos aprender com as suculentas a irmos além disso. Oxalá possamos aprender a fazer brotar novas vidas em nossas folhas… Quem sabe possamos reinventar aquelas funções da folha de uma planta que a escola ensinou a partir do estabelecimento de um processo interior, ininterrupto e otimista de ressureição através da geração de novas vidas a partir de nossas folhas.

Ainda sou do tempo em que muito do que se aprendia na escola era através da memorização. Tarefa sempre muito custosa para mim, que nem tinha muita competência para decorar, mas tinha de sobra curiosidade para querer sempre saber além do estabelecido. Muitas dessas coisas se foram com o passar dos anos, mas algumas ficaram para sempre.

Outro dia me peguei lembrando da famosa pergunta e respectiva resposta: “Em quantas partes se divide uma planta? Raiz, caule, folhas, frutos, flores e sementes”. Estudei em uma boa escola particular no subúrbio de Rocha Miranda, o Curso Almeida Mello, onde tínhamos jardim e pomar, lugares que seriam um excelente local para aprender esse assunto. Mas, pergunta e resposta foram decoradas sem referência alguma às atividades que fazíamos durante as aulas de jardinagem: o objetivo? Fazer prova de Ciências.

Ainda me lembro: cada parte tinha sua função. A raiz, além de sustentar a planta, é a responsável pela retirada de água e sais minerais do solo; o caule, responsável pela sustentação da planta e por levar a água e sais minerais da raiz para as outras partes dela; as folhas, responsáveis pela transpiração, alimentação e respiração das plantas. (Alguém sempre perguntava: e planta respira, é?). E as flores, minha paixão durante toda a vida, elas são as responsáveis pelos frutos e sementes, que fazem surgir novas plantas.

Apesar de amar flores e de ter aprendido, com meus pais, a não arrancar flores e a cuidar das plantas, preciso reconhecer que nunca fui boa nessa área agrícola. Até hoje, quase não sei nome de flores e jamais plantei uma árvore (embora já tenha escrito livros e sido mãe de uma linda filha). Fico encantada quando visito a casa da Silvana, uma amiga que sabe tudo de plantas e flores, e que tem um jardim maravilhoso.

De planta mesmo, nos dias de hoje, só consigo identificar algumas árvores frutíferas que havia no quintal da minha casa – mangueira, goiabeira e tamarineira. De flores, guardo um carinho especial pela “boca de leão”, que minha avó cultivava no quintal da minha infância, e a magnólia da casa da Angélica, minha vizinha e amiga até hoje: minha memória olfativa desse perfume me acompanha até hoje. E, por sorte, no percurso que faço a pé de casa para a academia de ginástica posso sentir esse perfume em uma das calçadas.

Claro que não incluo nessa incompetência agrícola minha experiência em plantar couves no quintal de casa. A razão aqui era outra: claro que minha mãe se aproveitava das folhas para fazer couve à mineira e seu famoso caldo verde, receita do tio Rubens. Mas o objetivo era criar borboletas. Era uma emoção imensa acompanhar seu ciclo de vida. Melhor ainda era poder vê-las sair do casulo, transformadas em lindas borboletas. Quando aprendi na escola a tal da metamorfose, já havia vivenciado a experiência muitas vezes.

Assumindo meus conhecimentos limitados nesse “letramento” agrícola, descobri outras funções para as folhas de uma planta. Isso graças aos conhecimentos de Luiz Higa, um amigo peruano, descendente de japoneses e marido da Helena, massoterapeuta e instrutor de Tai-chi. Ele me ensinou e eu aprendi (em vez de decorar!) que uma planta nova pode surgir de uma folha. Ele me mostrou a folha de uma Suculenta que, em contato com a terra, estava brotando para surgir uma nova planta. Parentes dos cactos, essas plantas têm esse nome porque possuem raiz, talos ou folhas gordas e cheias de líquido. Essa adaptação lhes permite manter reservas do líquido durante períodos prolongados, e sobreviver em ambientes áridos e secos que para as outras plantas seriam inabitáveis.

Desde esse dia em que vi uma nova vida nascendo de uma folha, fiquei refletindo sobre a capacidade de resiliência das suculentas, que nascem prontas para enfrentar condições climáticas adversas, principalmente a carência de água e o calor do sol. Fiquei, principalmente, pensando nessa capacidade de fazer brotar uma nova vida de uma folha.

Essas reflexões sobre a capacidade de renascer não devem estar acontecendo à toa. Afinal, em breve entraremos no período de Quaresma, os quarenta dias de jejum, orações e penitências que antecedem o domingo de Páscoa ou Domingo da Ressureição de Jesus. Ele, que triunfa da morte para proclamar o poder e a misericórdia de Deus, para nos chamar a participar de Sua vida. Quem sabe poderemos aproveitar esses quarenta dias para fazer como as as lagartas que eu criava com a plantação de couve – e chegarmos à Páscoa como lindas borboletas. Ou, quem sabe, possamos também aprender com as suculentas a acumular água e nutrientes em nossas raízes, caules e folhas para, como elas, conseguirmos resistir às intempéries da vida. Mas isso ainda é pouco, até porque a maioria do povo brasileiro já vem isso a vida toda.

Devemos aprender com as suculentas a irmos além disso. Oxalá possamos aprender a fazer brotar novas vidas em nossas folhas… Quem sabe possamos reinventar aquelas funções da folha de uma planta que a escola ensinou a partir do estabelecimento de um processo interior, ininterrupto e otimista de ressurreição através da geração de novas vidas a partir de nossas folhas.

Texto publicado em: Varal do Brasil – revista eletrônica editada na Suíssa por Jacqueline Aisenman – http://varaldobrasil.ch/ – disponível em https://issuu.com/jacquelinebulosaisenman/docs/varal_pascoa_2016

 

 

 

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Carta para meu neto Bernardo no seu primeiro Natal

Fonte: Carta para meu neto Bernardo no seu primeiro Natal

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Carta para meu neto Bernardo no seu primeiro Natal

 

 

2015-12-21 18.35.53

Bernardo com um mês e quinze dias.

Recife, 24 de dezembro de 2015

Carta da vovó Ynah para Bernardo no seu primeiro Natal! (Para ser lida no futuro)

Amor da vovó!

Ao longo desses 10 meses sentei várias vezes para escrever sobre a emoção que tenho vivido desde que soube que você estava a caminho. Mas, sua vovó, que tão bem lida com palavras, ficou travada. E mesmo agora, nesta carta, é muito difícil encontrar as palavras certas para lhe dizer das emoções que tenho vivido desde então. Mas vamos lá!

Você está chegando agora neste mundo. Que não está lá muito amigável. São catástrofes naturais, provocadas pela ação desastrosa do ser humano; são catástrofes humanas, provocadas pela ganância pelo dinheiro e poder. Então, a mídia tem tido carniça diária para nos oferecer gratuitamente, instilando decepção e pessimismo através veículos de comunicação e redes sociais. Carniça que antes chegava apenas pelos jornais e televisão, agora chega sem pedir licença em nossos aparelhos celulares.

Entretanto, se isso pode parecer ruim para os pessimistas de plantão, para os otimistas como eu é prova de que o ser humano é gregário por natureza. Então, você está nascendo em um mundo cujas características principais são a interação e conectividade em tempo real. Em fração de segundos, qualquer evento pode chegar a qualquer lugar do mundo. Então, conceitos como tempo/tempo, que norteavam a vida dos seres humanos, foram recriados em um mundo cujas “barreiras” caíram por terra, um mundo que deixou de ser sólido para ser líquido. (Se você quiser saber mais sobre isso, não deixe de ler ou assistir a entrevistas de um lúcido sociólogo chamado Bauman. É dele um livro chamado “Modernidade líquida”).

Então, meu neto, você nasce em um mundo em transformações constantes e profundas. E eu não tenho como aconselhar você. Aliás, esse também nunca foi o perfil de sua avó. Nunca me senti dona da verdade. Já acertei e errei muito nesses 60 anos de vida, mas nunca deixei de tomar as rédeas da minha vida – há uma frase que diz muito sobre o estilo de vida que segui: é melhor arrepender-se do que fez do que passar a vida lamentando o que não fez e podia ter feito. Por isso, neste seu primeiro Natal, quando você tem apenas um mês de vida, pensei em registrar aqui algumas dicas que considero importantes na vida:

  1. Valorizar a família, principalmente quem nos trouxe ao mundo ou quem nos educou. Entretanto, nunca se julgar “devedor” nem jamais se submeter às chantagens do tipo “deixei de fazer muitas coisas por conta dos filhos”. Isso não existe. Se fazemos ou deixamos de fazer algo, e se acertamos ou erramos, a culpa ou o mérito é exclusivamente nosso. Acho uma grande sacanagem (ih! Vovó também fala palavrão! Kkkkk) usar esse tipo de comportamento para escravizar alguém junto de nós.
  2. Aprender que a grande vocação de nossas vidas é o aprendizado. Viemos a esse mundo para nos melhorarmos e isso só é possível através do conhecimento. E não estou limitando esse conhecimento aos bancos escolares. Nesse mundo, a grande sacada é descobrir todas as maneiras possíveis de articular as informações em conhecimentos. Acredito que as ferramentas tecnológicas devam estar a serviço disso. O tempo de se decorar deu espaço ao tempo de se articular.
  3. Descobrir que o maior sentimento de nossas vidas se chama gratidão. Devemos ser gratos pela vida que recebemos de Deus, e por todas as experiências que tivermos a oportunidade de viver. Sejam elas consideradas positivas ou negativas. Eu diria até que as negativas são as melhores porque são elas que nos dão a oportunidade de rever nosso rumo e reavaliar nossas decisões. Agradecer todas as oportunidades. Ser grato por poder vivê-las.
  4. Aceitar que o passado, como dizia um grande escritor chamado “Mário de Andrade”, é “lição para se refletir e não para se repetir”. Isso é muito importante. Lamentar o que aconteceu, é coisa para pessimistas. O otimista, quando olha para o passado, o faz para redirecionar sua vida para o futuro. Segundo um filósofo chamado “Mário Cortela”, basta comparar o tamanho do para-brisa e do retrovisor do carro. Como o objetivo maior de um carro é seguir em frente, o para-brisa é maior que o retrovisor, que deve servir apenas como orientação para que não percamos nosso rumo nem avancemos em espaços que não nos pertencem. Então, nada de apego ao passado. Nada de acumular ressentimentos e lixo no porão de nossas vidas. Faxinar sempre!
  5. Não se deixar levar pelo lugar comum de que só o dinheiro traz felicidade. Claro que não estou falsamente dizendo pra você que é feliz quem vive na miséria e pobreza. Claro que o ser humano precisa de condições dignas de vida – moradia, alimentação, saúde e educação de qualidade. Entretanto, ao longo da vida, conheci muitas pessoas ricas e completamente infelizes, que não viviam sem um remédio de tarja preta. E muitas até que ganhavam muito dinheiro e viviam devendo e reclamando que não tinham grana… Ao mesmo tempo, conheci muitas pessoas felizes em vidas simples. Um exemplo? Em um final de semana, passeie em um bairro pobre e compare esse passeio com uma caminhada na Avenida Boa Viagem, observando os prédios luxuosos. Procure descobrir em que lugar a sensação de alegria é maior? Eu fui criada em um subúrbio do Rio de Janeiro, na casa onde até hoje moram sua bisavó Yara e seu bisavô Raimundo. Até hoje quando visitamos o lugar é fácil perceber que há vida pulsando nas ruas e lojas do lugar. Claro, tem muita fofoca também, muita gente que vive cuidando da vida dos outros, mas as pessoas são mais solidárias com os vizinhos e o clima é de alegria. Para os ricos, isso é uma alegria brega… pode ser, mas acredito que é muito melhor do que a tristeza burguesa. Procure pautar sua vida pela felicidade e não pelo dinheiro. Se puder somar aos dois a alegria de viver, ótimo.
  6. Tente compreender a função que a Arte tem em nossas vidas. É com ela que enriquecemos nossas experiências de vida. Sem ela, sinto-me pobre. Não dê ouvidos a quem diz que quem gosta de poesia é mulherzinha… Esses seres não terão espaço na vida futura. Adoro artes plásticas, música, literatura e toda forma de manifestação artística. (Seu vovó Jorge Simas pode lhe explicar melhor essa importância. Ele é um grande instrumentista no violão 7 cordas. Pode procurar na internet que você vai ver como ele arrasa!) Então, querido Bernardo, não se descuide de sua formação artística – teatro, cinema, poesia e tudo o que desperta nossa sensibilidade. Eu tenho certeza de que não vai haver espaço para pessoas insensíveis no futuro. Competência profissional sim, mas, acima de tudo, competência no trato com as questões que dizem respeito à sensibilidade. E a arte é o caminho para isso. Quem sabe você vai herdar de seu pai e de seu vô Jorge o amor pelas cordas! Ficaremos muito felizes e daremos total apoio!
  7. E por fim, nunca se descuide da delicadeza nas relações pessoais. Dizer “por favor” e “obrigado” é prova de que você é educado. Sei que sua mamãe e seu papai vão lhe ensinar isso muito bem. Então quero acrescentar: essa gentileza não significa que você vai sempre abrir mão do seu jeito de ser para agradar aos outros. Não, de jeito algum. Não abra mão do que você acredita ser o comportamento certo para você. Claro que isso não significa egoísmo. Mas autenticidade. Claro, também, que podemos ser autênticos sem precisa magoar ou ser grosseiro com os outros. Tenha certeza que seus pais vão planejar um caminho correto para que você siga, mas isso não quer dizer que você vai precisar seguir do jeitinho que foi planejado. Converse sempre com eles a respeito do que eles pensam que é o melhor pra você e, caso você pense diferente, mostre o que você julga ser o melhor. Com certeza, o diálogo é uma ferramenta para as pessoas bem-sucedidas na vida. Quem não sabe dialogar, vai precisar impor sua opinião, e às vezes faz isso com violência: são os ditadores. O ser inteligente é capaz de ouvir, refletir, dialogar e encontrar sempre um caminho melhor sem precisar usar a violência ou a grosseria. Seja você, mas jamais deixe de ser gentil.
  8. Aprender a usar o bom senso. O que significa fechar a possibilidade de radicalizar a vida. O equilíbrio é o segredo de uma vida plena. Isso vale em todos os campos, na vida pessoal, profissional e, acima de tudo, no campo religioso. Você, Bernardo, está nascendo em uma família católica, o que não significa que você vai sempre seguir os dogmas dessa religião. Entretanto, a despeito de qualquer escolha que você faça, nunca duvide da importância da fé, não importa em qual dos credos ela se manifeste. Já diz Jesus, são vários os caminhos da morada do meu Pai. O importante é achar um caminho que lhe leve com equilíbrio – sem radicalismos – à tal morada.

 

Querido neto Bernardo de Souza Abejdid Lustosa, por fim, nunca se esqueça de que o verdadeiro sentido do Natal passa longe do verbo COMPRAR. Muito pelo contrário, esta é a data para se conjugar muitos outros verbos: rezar, amar, compartilhar, dividir, agradecer, entre outros.

Um beijo eterno dessa sua avó que NUNCA vai deixar de lhe amar.

 

 

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O aluno desarrumado; sobre a adoção ou não de gramática nas aulas de Língua Portuguesa

O ALUNO DESARRUMADO; sobre a adoção ou não de gramática nas aulas de Língua Portuguesa [1]

YNAH DE SOUZA NASCIMENTO (UFPE)

Resumo: Duas conversas mantidas entre professor e pais de alunos durante uma reunião de entrega de notas na escola. Nos dois momentos o assunto é o mesmo: a utilização ou não de livro didático nas aulas de Português. Como explicar a um pai que sua filha não precisa decorar regras – ela pode descobri-las a partir do uso, falado ou escrito da língua. Como explicar ao pai e à mãe de um aluno de doze anos que a desorganização desse aluno não é consequência da falta de um livro didático de Português, mas sim uma tentativa de estabelecer sua própria identidade.

Treze horas.

A responsável pela disciplina avisa que os pais estão me aguardando na sala da sexta-série: reunião de pais.

Supervisora da 6ª série B, preenchendo fichas, fazendo Conselhos de Classe, ouvindo reivindicações dos alunos, reclamações dos professores (A turma está impossível!).

Agora, para completar – os pais.

Saio de uma reunião que começara às 11 horas. Tenho tudo o que não gostaria: fome, sede, vontade de ir ao banheiro. Mas, lá vou eu ouvir os pais dos alunos.

Você pode me explicar uma coisa? Antigamente, quando eu estudava português, a gente tinha que usar um livro bem grosso – a gramática. O professor dava todas aquelas regras e a gente tinha que decorar pra usar na prova. Você não faz assim? Preciso comprar uma gramática pra minha filha?

            E eu, ouvindo a dúvida (a cobrança?), lembrando que também estudara assim; aos poucos, mas em fração de segundos, sentia e compartilhava com aquele pai – colega da Universidade – a frustração que tínhamos nas aulas de Português. Com ele, me identificava, mas me diferenciava: tinha descoberto outro caminho…

Você gostava de estudar português? — Devolvi-lhe a pergunta.

Detestava e até hoje tenho traumas daquelas famosas regras, e da análise sintática, nem se fala.

            Pois sua filha gosta das aulas de Português. Você sabe por quê?

            Bom, algo deve ter mudado. Não entendo como ela escreve bem sem decorar as regras…

            Quando você fala, escreve, fica lembrando regras? E as crianças pequenas?

            É verdade, nem lembro mais do que decorei…

            Agora, volto a sua pergunta inicial – ainda quer a resposta?

            Como os alunos conhecem as regras? Você sabe, nos concursos…

            E, com a observação desse pai, fiquei rindo daqueles professores que se julgam excelentes porque enchem a cabeça (e a paciência) dos alunos, com regras e mais regras — pensando que ensinam… Tive pena daqueles colegas que se ausentam das discussões sobre o papel social e político da escola, da educação, alegando não tenho nada com isso.

Sua filha não precisa conhecer as regras: ela descobre, a partir do uso, falado e escrito, que faz da língua. Ela não precisa decorá-las porque ela já as domina como falante da Língua Portuguesa.

O pai de minha aluna saiu sem dúvidas. Deixou um bocado delas comigo…

Outro atendimento.

Agora um pai e uma mãe de aluno.

Você não acha que, usando livro nas aulas, os alunos seriam mais organizados? Meu filho anda tão desarrumado

Vou ouvindo as observações, olhando as notas do aluno desarrumado, pensando…

Mas seu filho usa livro, aliás, ele gosta muito de ler os livros de literatura da Biblioteca de Classe.

            Eu falo é do livro didático.

            Mas eu uso material didático; seleciono o melhor que tenho, crio o que não tenho; os alunos guardam esse material numa pasta.

            Ah! Mas meu filho perde tudo. Se fosse o livro era mais fácil controlar.

Eis aí a palavra-chave — controlar — pensei imediatamente.

Seu filho está em recuperação em Matemática, Ciências, OSPB. Esses professores não usam livro didático?


 

            Usam, mas acho que meu filho não está preparado para uma escola liberal. Estou pensando em transferi-lo para um colégio lá perto de casa – eu conheço o diretor, os professores; fica mais fácil controlar.

E, de novo, a mesma palavra de antes: controlar.

A cada trecho que ouvia, a desarrumação de Pedro[2] (o aluno) ia se explicando. Ele, na busca de sua identidade, rasgando os modelos de casa – sofrendo. O pai dizia que, antes, o filho era estudioso, organizado, mas agora…

Comecei a olhar com mais atenção para meu aluno que buscava ser ele mesmo e rompia assim com o modelo que os pais haviam escolhido para ele. Justifiquei o desespero dos pais – Pedro não se acomodava ao modelo que lhe impunham.

Entendi a desarrumação da maioria dos meus alunos de 6ª e 7ª séries. Justifiquei a existência de pessoas desajustadas por falharem nessa busca de identidade.

Você, diga sinceramente, acha melhor ou não tirar Pedro daqui?

Os pais, em desespero, pediam que eu concordasse em apontar a escola como culpada de tudo.

Que tal tentarmos deixá-lo mais uma etapa – a segunda? Quem sabe tudo se resolve?

Tentava argumentar, um pouco desanimada, julgando-me impotente, fraca, diante daquele pai, daquela mãe que sentiam o filho escapando pelos dedos e fechavam as mãos tentando detê-lo, em vão.

Aprendi, como professora, a aceitar o desafio do outro, mas impossível dizer minha experiência àqueles pais – eles precisavam viver essa diferença e, mesmo sofrendo, aprender a conviver com os outros.

Uma semana depois, a secretária do colégio avisava-me que Pedro havia sido transferido. E eu, que tinha jurado não fazer mais reuniões de pais, desisti da jura.

 

Publicado em:

NASCIMENTO, Ynah de Souza. “Aprendiz de professora; o aluno desarrumado e outras histórias”. Recife: Edição da autora, 2012.

[1] Experiência vivida pela professora Ynah enquanto Supervisora de Classe de alunos do Colégio de Aplicação da UFPE.

[2]O nome real do aluno foi trocado para preservar sua identidade.

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Colégio de Aplicação da UFPE: concurso ou sorteio? Algumas reflexões

Fonte: Colégio de Aplicação da UFPE: concurso ou sorteio? Algumas reflexões

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