O desafio de ressurgir das folhas

Ainda sou do tempo em que muito do que se aprendia na escola era através da memorização. Tarefa sempre muito custosa para mim, que nem tinha muita competência para decorar, mas tinha de sobra curiosidade para querer sempre saber além do estabelecido. Muitas dessas coisas se foram com o passar dos anos, mas algumas ficaram para sempre.

Outro dia me peguei lembrando da famosa pergunta e respectiva resposta: “Em quantas partes se divide uma planta? Raiz, caule, folhas, frutos, flores e sementes”. Estudei em uma boa escola particular no subúrbio de Rocha Miranda, o Curso Almeida Mello, onde tínhamos jardim e pomar, lugares que seriam um excelente local para aprender esse assunto. Mas, pergunta e resposta foram decoradas sem referência alguma às atividades que fazíamos durante as aulas de jardinagem: o objetivo? Fazer prova de Ciências.

Ainda me lembro: cada parte tinha sua função. A raiz, além de sustentar a planta, é a responsável pela retirada de água e sais minerais do solo; o caule, responsável pela sustentação da planta e por levar a água e sais minerais da raiz para as outras partes dela; as folhas, responsáveis pela transpiração, alimentação e respiração das plantas. (Alguém sempre perguntava: e planta respira, é?). E as flores, minha paixão durante toda a vida, elas são as responsáveis pelos frutos e sementes, que fazem surgir novas plantas.

Apesar de amar flores e de ter aprendido, com meus pais, a não arrancar flores e a cuidar das plantas, preciso reconhecer que nunca fui boa nessa área agrícola. Até hoje, quase não sei nome de flores e jamais plantei uma árvore (embora já tenha escrito livros e sido mãe de uma linda filha). Fico encantada quando visito a casa da Silvana, uma amiga que sabe tudo de plantas e flores, e que tem um jardim maravilhoso.

De planta mesmo, nos dias de hoje, só consigo identificar algumas árvores frutíferas que havia no quintal da minha casa – mangueira, goiabeira e tamarineira. De flores, guardo um carinho especial pela “boca de leão”, que minha avó cultivava no quintal da minha infância, e a magnólia da casa da Angélica, minha vizinha e amiga até hoje: minha memória olfativa desse perfume me acompanha até hoje. E, por sorte, no percurso que faço a pé de casa para a academia de ginástica posso sentir esse perfume em uma das calçadas.

Claro que não incluo nessa incompetência agrícola minha experiência em plantar couves no quintal de casa. A razão aqui era outra: claro que minha mãe se aproveitava das folhas para fazer couve à mineira e seu famoso caldo verde, receita do tio Rubens. Mas o objetivo era criar borboletas. Era uma emoção imensa acompanhar seu ciclo de vida. Melhor ainda era poder vê-las sair do casulo, transformadas em lindas borboletas. Quando aprendi na escola a tal da metamorfose, já havia vivenciado a experiência muitas vezes.

Assumindo meus conhecimentos limitados nesse “letramento” agrícola, descobri outras funções para as folhas de uma planta. Isso graças aos conhecimentos de Luiz Higa, um amigo peruano, descendente de japoneses e marido da Helena, massoterapeuta e instrutor de Tai-chi. Ele me ensinou e eu aprendi (em vez de decorar!) que uma planta nova pode surgir de uma folha. Ele me mostrou a folha de uma Suculenta que, em contato com a terra, estava brotando para surgir uma nova planta. Parentes dos cactos, essas plantas têm esse nome porque possuem raiz, talos ou folhas gordas e cheias de líquido. Essa adaptação lhes permite manter reservas do líquido durante períodos prolongados, e sobreviver em ambientes áridos e secos que para as outras plantas seriam inabitáveis.

Suculenta

Fonte da imagem: http://www.jardinaria.com.br/blog/2010/06/especies-de-suculentas/ 

Desde esse dia em que vi uma nova vida nascendo de uma folha, fiquei refletindo sobre a capacidade de resiliência das suculentas, que nascem prontas para enfrentar condições climáticas adversas, principalmente a carência de água e o calor do sol. Fiquei, principalmente, pensando nessa capacidade de fazer brotar uma nova vida de uma folha.

Essas reflexões sobre a capacidade de renascer não devem estar acontecendo à toa. Afinal, em breve entraremos no período de Quaresma, os quarenta dias de jejum, orações e penitências que antecedem o domingo de Páscoa ou Domingo da Ressureição de Jesus. Ele, que triunfa da morte para proclamar o poder e a misericórdia de Deus, para nos chamar a participar de Sua vida. Quem sabe poderemos aproveitar esses quarenta dias para fazer como as as lagartas que eu criava com a plantação de couve – e chegarmos à Páscoa como lindas borboletas. Ou, quem sabe, possamos também aprender com as suculentas a acumular água e nutrientes em nossas raízes, caules e folhas para, como elas, conseguirmos resistir às intempéries da vida. Mas isso ainda é pouco, até porque a maioria do povo brasileiro já vem isso a vida toda.

Devemos aprender com as suculentas a irmos além disso. Oxalá possamos aprender a fazer brotar novas vidas em nossas folhas… Quem sabe possamos reinventar aquelas funções da folha de uma planta que a escola ensinou a partir do estabelecimento de um processo interior, ininterrupto e otimista de ressureição através da geração de novas vidas a partir de nossas folhas.

Ainda sou do tempo em que muito do que se aprendia na escola era através da memorização. Tarefa sempre muito custosa para mim, que nem tinha muita competência para decorar, mas tinha de sobra curiosidade para querer sempre saber além do estabelecido. Muitas dessas coisas se foram com o passar dos anos, mas algumas ficaram para sempre.

Outro dia me peguei lembrando da famosa pergunta e respectiva resposta: “Em quantas partes se divide uma planta? Raiz, caule, folhas, frutos, flores e sementes”. Estudei em uma boa escola particular no subúrbio de Rocha Miranda, o Curso Almeida Mello, onde tínhamos jardim e pomar, lugares que seriam um excelente local para aprender esse assunto. Mas, pergunta e resposta foram decoradas sem referência alguma às atividades que fazíamos durante as aulas de jardinagem: o objetivo? Fazer prova de Ciências.

Ainda me lembro: cada parte tinha sua função. A raiz, além de sustentar a planta, é a responsável pela retirada de água e sais minerais do solo; o caule, responsável pela sustentação da planta e por levar a água e sais minerais da raiz para as outras partes dela; as folhas, responsáveis pela transpiração, alimentação e respiração das plantas. (Alguém sempre perguntava: e planta respira, é?). E as flores, minha paixão durante toda a vida, elas são as responsáveis pelos frutos e sementes, que fazem surgir novas plantas.

Apesar de amar flores e de ter aprendido, com meus pais, a não arrancar flores e a cuidar das plantas, preciso reconhecer que nunca fui boa nessa área agrícola. Até hoje, quase não sei nome de flores e jamais plantei uma árvore (embora já tenha escrito livros e sido mãe de uma linda filha). Fico encantada quando visito a casa da Silvana, uma amiga que sabe tudo de plantas e flores, e que tem um jardim maravilhoso.

De planta mesmo, nos dias de hoje, só consigo identificar algumas árvores frutíferas que havia no quintal da minha casa – mangueira, goiabeira e tamarineira. De flores, guardo um carinho especial pela “boca de leão”, que minha avó cultivava no quintal da minha infância, e a magnólia da casa da Angélica, minha vizinha e amiga até hoje: minha memória olfativa desse perfume me acompanha até hoje. E, por sorte, no percurso que faço a pé de casa para a academia de ginástica posso sentir esse perfume em uma das calçadas.

Claro que não incluo nessa incompetência agrícola minha experiência em plantar couves no quintal de casa. A razão aqui era outra: claro que minha mãe se aproveitava das folhas para fazer couve à mineira e seu famoso caldo verde, receita do tio Rubens. Mas o objetivo era criar borboletas. Era uma emoção imensa acompanhar seu ciclo de vida. Melhor ainda era poder vê-las sair do casulo, transformadas em lindas borboletas. Quando aprendi na escola a tal da metamorfose, já havia vivenciado a experiência muitas vezes.

Assumindo meus conhecimentos limitados nesse “letramento” agrícola, descobri outras funções para as folhas de uma planta. Isso graças aos conhecimentos de Luiz Higa, um amigo peruano, descendente de japoneses e marido da Helena, massoterapeuta e instrutor de Tai-chi. Ele me ensinou e eu aprendi (em vez de decorar!) que uma planta nova pode surgir de uma folha. Ele me mostrou a folha de uma Suculenta que, em contato com a terra, estava brotando para surgir uma nova planta. Parentes dos cactos, essas plantas têm esse nome porque possuem raiz, talos ou folhas gordas e cheias de líquido. Essa adaptação lhes permite manter reservas do líquido durante períodos prolongados, e sobreviver em ambientes áridos e secos que para as outras plantas seriam inabitáveis.

Desde esse dia em que vi uma nova vida nascendo de uma folha, fiquei refletindo sobre a capacidade de resiliência das suculentas, que nascem prontas para enfrentar condições climáticas adversas, principalmente a carência de água e o calor do sol. Fiquei, principalmente, pensando nessa capacidade de fazer brotar uma nova vida de uma folha.

Essas reflexões sobre a capacidade de renascer não devem estar acontecendo à toa. Afinal, em breve entraremos no período de Quaresma, os quarenta dias de jejum, orações e penitências que antecedem o domingo de Páscoa ou Domingo da Ressureição de Jesus. Ele, que triunfa da morte para proclamar o poder e a misericórdia de Deus, para nos chamar a participar de Sua vida. Quem sabe poderemos aproveitar esses quarenta dias para fazer como as as lagartas que eu criava com a plantação de couve – e chegarmos à Páscoa como lindas borboletas. Ou, quem sabe, possamos também aprender com as suculentas a acumular água e nutrientes em nossas raízes, caules e folhas para, como elas, conseguirmos resistir às intempéries da vida. Mas isso ainda é pouco, até porque a maioria do povo brasileiro já vem isso a vida toda.

Devemos aprender com as suculentas a irmos além disso. Oxalá possamos aprender a fazer brotar novas vidas em nossas folhas… Quem sabe possamos reinventar aquelas funções da folha de uma planta que a escola ensinou a partir do estabelecimento de um processo interior, ininterrupto e otimista de ressurreição através da geração de novas vidas a partir de nossas folhas.

Texto publicado em: Varal do Brasil – revista eletrônica editada na Suíssa por Jacqueline Aisenman – http://varaldobrasil.ch/ – disponível em https://issuu.com/jacquelinebulosaisenman/docs/varal_pascoa_2016

 

 

 

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Carta para meu neto Bernardo no seu primeiro Natal

Fonte: Carta para meu neto Bernardo no seu primeiro Natal

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Carta para meu neto Bernardo no seu primeiro Natal

 

 

2015-12-21 18.35.53

Bernardo com um mês e quinze dias.

Recife, 24 de dezembro de 2015

Carta da vovó Ynah para Bernardo no seu primeiro Natal! (Para ser lida no futuro)

Amor da vovó!

Ao longo desses 10 meses sentei várias vezes para escrever sobre a emoção que tenho vivido desde que soube que você estava a caminho. Mas, sua vovó, que tão bem lida com palavras, ficou travada. E mesmo agora, nesta carta, é muito difícil encontrar as palavras certas para lhe dizer das emoções que tenho vivido desde então. Mas vamos lá!

Você está chegando agora neste mundo. Que não está lá muito amigável. São catástrofes naturais, provocadas pela ação desastrosa do ser humano; são catástrofes humanas, provocadas pela ganância pelo dinheiro e poder. Então, a mídia tem tido carniça diária para nos oferecer gratuitamente, instilando decepção e pessimismo através veículos de comunicação e redes sociais. Carniça que antes chegava apenas pelos jornais e televisão, agora chega sem pedir licença em nossos aparelhos celulares.

Entretanto, se isso pode parecer ruim para os pessimistas de plantão, para os otimistas como eu é prova de que o ser humano é gregário por natureza. Então, você está nascendo em um mundo cujas características principais são a interação e conectividade em tempo real. Em fração de segundos, qualquer evento pode chegar a qualquer lugar do mundo. Então, conceitos como tempo/tempo, que norteavam a vida dos seres humanos, foram recriados em um mundo cujas “barreiras” caíram por terra, um mundo que deixou de ser sólido para ser líquido. (Se você quiser saber mais sobre isso, não deixe de ler ou assistir a entrevistas de um lúcido sociólogo chamado Bauman. É dele um livro chamado “Modernidade líquida”).

Então, meu neto, você nasce em um mundo em transformações constantes e profundas. E eu não tenho como aconselhar você. Aliás, esse também nunca foi o perfil de sua avó. Nunca me senti dona da verdade. Já acertei e errei muito nesses 60 anos de vida, mas nunca deixei de tomar as rédeas da minha vida – há uma frase que diz muito sobre o estilo de vida que segui: é melhor arrepender-se do que fez do que passar a vida lamentando o que não fez e podia ter feito. Por isso, neste seu primeiro Natal, quando você tem apenas um mês de vida, pensei em registrar aqui algumas dicas que considero importantes na vida:

  1. Valorizar a família, principalmente quem nos trouxe ao mundo ou quem nos educou. Entretanto, nunca se julgar “devedor” nem jamais se submeter às chantagens do tipo “deixei de fazer muitas coisas por conta dos filhos”. Isso não existe. Se fazemos ou deixamos de fazer algo, e se acertamos ou erramos, a culpa ou o mérito é exclusivamente nosso. Acho uma grande sacanagem (ih! Vovó também fala palavrão! Kkkkk) usar esse tipo de comportamento para escravizar alguém junto de nós.
  2. Aprender que a grande vocação de nossas vidas é o aprendizado. Viemos a esse mundo para nos melhorarmos e isso só é possível através do conhecimento. E não estou limitando esse conhecimento aos bancos escolares. Nesse mundo, a grande sacada é descobrir todas as maneiras possíveis de articular as informações em conhecimentos. Acredito que as ferramentas tecnológicas devam estar a serviço disso. O tempo de se decorar deu espaço ao tempo de se articular.
  3. Descobrir que o maior sentimento de nossas vidas se chama gratidão. Devemos ser gratos pela vida que recebemos de Deus, e por todas as experiências que tivermos a oportunidade de viver. Sejam elas consideradas positivas ou negativas. Eu diria até que as negativas são as melhores porque são elas que nos dão a oportunidade de rever nosso rumo e reavaliar nossas decisões. Agradecer todas as oportunidades. Ser grato por poder vivê-las.
  4. Aceitar que o passado, como dizia um grande escritor chamado “Mário de Andrade”, é “lição para se refletir e não para se repetir”. Isso é muito importante. Lamentar o que aconteceu, é coisa para pessimistas. O otimista, quando olha para o passado, o faz para redirecionar sua vida para o futuro. Segundo um filósofo chamado “Mário Cortela”, basta comparar o tamanho do para-brisa e do retrovisor do carro. Como o objetivo maior de um carro é seguir em frente, o para-brisa é maior que o retrovisor, que deve servir apenas como orientação para que não percamos nosso rumo nem avancemos em espaços que não nos pertencem. Então, nada de apego ao passado. Nada de acumular ressentimentos e lixo no porão de nossas vidas. Faxinar sempre!
  5. Não se deixar levar pelo lugar comum de que só o dinheiro traz felicidade. Claro que não estou falsamente dizendo pra você que é feliz quem vive na miséria e pobreza. Claro que o ser humano precisa de condições dignas de vida – moradia, alimentação, saúde e educação de qualidade. Entretanto, ao longo da vida, conheci muitas pessoas ricas e completamente infelizes, que não viviam sem um remédio de tarja preta. E muitas até que ganhavam muito dinheiro e viviam devendo e reclamando que não tinham grana… Ao mesmo tempo, conheci muitas pessoas felizes em vidas simples. Um exemplo? Em um final de semana, passeie em um bairro pobre e compare esse passeio com uma caminhada na Avenida Boa Viagem, observando os prédios luxuosos. Procure descobrir em que lugar a sensação de alegria é maior? Eu fui criada em um subúrbio do Rio de Janeiro, na casa onde até hoje moram sua bisavó Yara e seu bisavô Raimundo. Até hoje quando visitamos o lugar é fácil perceber que há vida pulsando nas ruas e lojas do lugar. Claro, tem muita fofoca também, muita gente que vive cuidando da vida dos outros, mas as pessoas são mais solidárias com os vizinhos e o clima é de alegria. Para os ricos, isso é uma alegria brega… pode ser, mas acredito que é muito melhor do que a tristeza burguesa. Procure pautar sua vida pela felicidade e não pelo dinheiro. Se puder somar aos dois a alegria de viver, ótimo.
  6. Tente compreender a função que a Arte tem em nossas vidas. É com ela que enriquecemos nossas experiências de vida. Sem ela, sinto-me pobre. Não dê ouvidos a quem diz que quem gosta de poesia é mulherzinha… Esses seres não terão espaço na vida futura. Adoro artes plásticas, música, literatura e toda forma de manifestação artística. (Seu vovó Jorge Simas pode lhe explicar melhor essa importância. Ele é um grande instrumentista no violão 7 cordas. Pode procurar na internet que você vai ver como ele arrasa!) Então, querido Bernardo, não se descuide de sua formação artística – teatro, cinema, poesia e tudo o que desperta nossa sensibilidade. Eu tenho certeza de que não vai haver espaço para pessoas insensíveis no futuro. Competência profissional sim, mas, acima de tudo, competência no trato com as questões que dizem respeito à sensibilidade. E a arte é o caminho para isso. Quem sabe você vai herdar de seu pai e de seu vô Jorge o amor pelas cordas! Ficaremos muito felizes e daremos total apoio!
  7. E por fim, nunca se descuide da delicadeza nas relações pessoais. Dizer “por favor” e “obrigado” é prova de que você é educado. Sei que sua mamãe e seu papai vão lhe ensinar isso muito bem. Então quero acrescentar: essa gentileza não significa que você vai sempre abrir mão do seu jeito de ser para agradar aos outros. Não, de jeito algum. Não abra mão do que você acredita ser o comportamento certo para você. Claro que isso não significa egoísmo. Mas autenticidade. Claro, também, que podemos ser autênticos sem precisa magoar ou ser grosseiro com os outros. Tenha certeza que seus pais vão planejar um caminho correto para que você siga, mas isso não quer dizer que você vai precisar seguir do jeitinho que foi planejado. Converse sempre com eles a respeito do que eles pensam que é o melhor pra você e, caso você pense diferente, mostre o que você julga ser o melhor. Com certeza, o diálogo é uma ferramenta para as pessoas bem-sucedidas na vida. Quem não sabe dialogar, vai precisar impor sua opinião, e às vezes faz isso com violência: são os ditadores. O ser inteligente é capaz de ouvir, refletir, dialogar e encontrar sempre um caminho melhor sem precisar usar a violência ou a grosseria. Seja você, mas jamais deixe de ser gentil.
  8. Aprender a usar o bom senso. O que significa fechar a possibilidade de radicalizar a vida. O equilíbrio é o segredo de uma vida plena. Isso vale em todos os campos, na vida pessoal, profissional e, acima de tudo, no campo religioso. Você, Bernardo, está nascendo em uma família católica, o que não significa que você vai sempre seguir os dogmas dessa religião. Entretanto, a despeito de qualquer escolha que você faça, nunca duvide da importância da fé, não importa em qual dos credos ela se manifeste. Já diz Jesus, são vários os caminhos da morada do meu Pai. O importante é achar um caminho que lhe leve com equilíbrio – sem radicalismos – à tal morada.

 

Querido neto Bernardo de Souza Abejdid Lustosa, por fim, nunca se esqueça de que o verdadeiro sentido do Natal passa longe do verbo COMPRAR. Muito pelo contrário, esta é a data para se conjugar muitos outros verbos: rezar, amar, compartilhar, dividir, agradecer, entre outros.

Um beijo eterno dessa sua avó que NUNCA vai deixar de lhe amar.

 

 

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O aluno desarrumado; sobre a adoção ou não de gramática nas aulas de Língua Portuguesa

O ALUNO DESARRUMADO; sobre a adoção ou não de gramática nas aulas de Língua Portuguesa [1]

YNAH DE SOUZA NASCIMENTO (UFPE)

Resumo: Duas conversas mantidas entre professor e pais de alunos durante uma reunião de entrega de notas na escola. Nos dois momentos o assunto é o mesmo: a utilização ou não de livro didático nas aulas de Português. Como explicar a um pai que sua filha não precisa decorar regras – ela pode descobri-las a partir do uso, falado ou escrito da língua. Como explicar ao pai e à mãe de um aluno de doze anos que a desorganização desse aluno não é consequência da falta de um livro didático de Português, mas sim uma tentativa de estabelecer sua própria identidade.

Treze horas.

A responsável pela disciplina avisa que os pais estão me aguardando na sala da sexta-série: reunião de pais.

Supervisora da 6ª série B, preenchendo fichas, fazendo Conselhos de Classe, ouvindo reivindicações dos alunos, reclamações dos professores (A turma está impossível!).

Agora, para completar – os pais.

Saio de uma reunião que começara às 11 horas. Tenho tudo o que não gostaria: fome, sede, vontade de ir ao banheiro. Mas, lá vou eu ouvir os pais dos alunos.

Você pode me explicar uma coisa? Antigamente, quando eu estudava português, a gente tinha que usar um livro bem grosso – a gramática. O professor dava todas aquelas regras e a gente tinha que decorar pra usar na prova. Você não faz assim? Preciso comprar uma gramática pra minha filha?

            E eu, ouvindo a dúvida (a cobrança?), lembrando que também estudara assim; aos poucos, mas em fração de segundos, sentia e compartilhava com aquele pai – colega da Universidade – a frustração que tínhamos nas aulas de Português. Com ele, me identificava, mas me diferenciava: tinha descoberto outro caminho…

Você gostava de estudar português? — Devolvi-lhe a pergunta.

Detestava e até hoje tenho traumas daquelas famosas regras, e da análise sintática, nem se fala.

            Pois sua filha gosta das aulas de Português. Você sabe por quê?

            Bom, algo deve ter mudado. Não entendo como ela escreve bem sem decorar as regras…

            Quando você fala, escreve, fica lembrando regras? E as crianças pequenas?

            É verdade, nem lembro mais do que decorei…

            Agora, volto a sua pergunta inicial – ainda quer a resposta?

            Como os alunos conhecem as regras? Você sabe, nos concursos…

            E, com a observação desse pai, fiquei rindo daqueles professores que se julgam excelentes porque enchem a cabeça (e a paciência) dos alunos, com regras e mais regras — pensando que ensinam… Tive pena daqueles colegas que se ausentam das discussões sobre o papel social e político da escola, da educação, alegando não tenho nada com isso.

Sua filha não precisa conhecer as regras: ela descobre, a partir do uso, falado e escrito, que faz da língua. Ela não precisa decorá-las porque ela já as domina como falante da Língua Portuguesa.

O pai de minha aluna saiu sem dúvidas. Deixou um bocado delas comigo…

Outro atendimento.

Agora um pai e uma mãe de aluno.

Você não acha que, usando livro nas aulas, os alunos seriam mais organizados? Meu filho anda tão desarrumado

Vou ouvindo as observações, olhando as notas do aluno desarrumado, pensando…

Mas seu filho usa livro, aliás, ele gosta muito de ler os livros de literatura da Biblioteca de Classe.

            Eu falo é do livro didático.

            Mas eu uso material didático; seleciono o melhor que tenho, crio o que não tenho; os alunos guardam esse material numa pasta.

            Ah! Mas meu filho perde tudo. Se fosse o livro era mais fácil controlar.

Eis aí a palavra-chave — controlar — pensei imediatamente.

Seu filho está em recuperação em Matemática, Ciências, OSPB. Esses professores não usam livro didático?


 

            Usam, mas acho que meu filho não está preparado para uma escola liberal. Estou pensando em transferi-lo para um colégio lá perto de casa – eu conheço o diretor, os professores; fica mais fácil controlar.

E, de novo, a mesma palavra de antes: controlar.

A cada trecho que ouvia, a desarrumação de Pedro[2] (o aluno) ia se explicando. Ele, na busca de sua identidade, rasgando os modelos de casa – sofrendo. O pai dizia que, antes, o filho era estudioso, organizado, mas agora…

Comecei a olhar com mais atenção para meu aluno que buscava ser ele mesmo e rompia assim com o modelo que os pais haviam escolhido para ele. Justifiquei o desespero dos pais – Pedro não se acomodava ao modelo que lhe impunham.

Entendi a desarrumação da maioria dos meus alunos de 6ª e 7ª séries. Justifiquei a existência de pessoas desajustadas por falharem nessa busca de identidade.

Você, diga sinceramente, acha melhor ou não tirar Pedro daqui?

Os pais, em desespero, pediam que eu concordasse em apontar a escola como culpada de tudo.

Que tal tentarmos deixá-lo mais uma etapa – a segunda? Quem sabe tudo se resolve?

Tentava argumentar, um pouco desanimada, julgando-me impotente, fraca, diante daquele pai, daquela mãe que sentiam o filho escapando pelos dedos e fechavam as mãos tentando detê-lo, em vão.

Aprendi, como professora, a aceitar o desafio do outro, mas impossível dizer minha experiência àqueles pais – eles precisavam viver essa diferença e, mesmo sofrendo, aprender a conviver com os outros.

Uma semana depois, a secretária do colégio avisava-me que Pedro havia sido transferido. E eu, que tinha jurado não fazer mais reuniões de pais, desisti da jura.

 

Publicado em:

NASCIMENTO, Ynah de Souza. “Aprendiz de professora; o aluno desarrumado e outras histórias”. Recife: Edição da autora, 2012.

[1] Experiência vivida pela professora Ynah enquanto Supervisora de Classe de alunos do Colégio de Aplicação da UFPE.

[2]O nome real do aluno foi trocado para preservar sua identidade.

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Colégio de Aplicação da UFPE: concurso ou sorteio? Algumas reflexões

Fonte: Colégio de Aplicação da UFPE: concurso ou sorteio? Algumas reflexões

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TODO BRASILEIRO É ESPECIALISTA EM ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA. SERÁ?

Fonte: TODO BRASILEIRO É ESPECIALISTA EM ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA. SERÁ?

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TODO BRASILEIRO É ESPECIALISTA EM ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA. SERÁ?

No Brasil é assim, todo mundo se sente competente para tecer comentários a respeito do ensino de língua portuguesa. Principalmente políticos. Já houve quem propusesse o fim dos estrangeirismos (Aldo Rebelo, 2007), a reforma ortográfica para “simplificar a língua portuguesa”- projeto proposto pelo professor Ernani Pimentel e acolhido para discussão no Senado. E, agora, o novo ministro da educação, o economista Aloizio Mercadante. Segundo matéria jornalística, ele critica o pouco conteúdo de gramática da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Elaborada por comissão de especialistas, sob a coordenação do MEC, essa base tem o objetivo de nortear o que será ensinado em todas as escolas de educação básica do país, por isso o documento estará até o dia 15 de dezembro de 2015 aberto ao debate público[1]. Segundo a matéria jornalística, a proposta de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental séries iniciais “praticamente não faz referências ao ensino de gramática”[2].

Antes de reportar-me ao documento propriamente dito, é preciso lembrar que não existe apenas uma definição de gramática, mas várias: onze, para Travaglia (1998); três para Possenti (1996) – normativas, descritivas e internalizadas. As normativas, um conjunto de regras que devem ser seguidas; as descritivas, isto é, um conjunto de regras que descrevem e/ou explicam as línguas tais como elas são faladas; e as internalizadas, conjunto de regras que o falante domina e se refere a hipóteses sobre os conhecimentos que habilitam o falante a produzir frases ou sequências de palavras como pertencendo a uma língua. Então, quando se emprega o termo “gramática” no espaço escolar, esse termo é empregado no sentido de gramática normativa.

Qual o modelo dessa gramática normativa? O pressuposto desse modelo é que para entender uma língua deve-se partir de suas unidades menores (fonemas e letras), passar para as sílabas e palavras, até chegar a frases, orações e períodos, que formam os significados. Basta consultar o índice das gramáticas para constatar isso: os conteúdos são distribuídos em partes – Fonética e Fonologia; Morfologia; Sintaxe; Semântica. Parte-se das menores unidades para as maiores unidades. E, infelizmente, tudo isso é repassado para os alunos de forma estanque, também, obrigando-os a decorar tudo. Levando-os a ter horror pelas aulas de língua portuguesa porque, para a grande parte dos alunos, elas significam gramática, gramática e gramática. Há uma preocupação em fazer cumprir um programa pré-estabelecido, mas que não leva em conta as dificuldades dos sujeitos envolvidos no processo nem o uso efetivo da língua numa situação de interação verbal.

Entretanto, esse ainda é um modelo que permanece na escola brasileira, apesar das propostas de ensino de língua inspiradas nas contribuições da linguística. No Brasil, grande parte dessas contribuições surgiu das pesquisas de um grupo de professores do Instituto de Estudos da Linguagem (Unicamp) liderados pelo professor João Wanderley Geraldi[3] na década de 80. O livro referência dessas propostas – “O texto na sala de aula” – reúne 12 artigos de vários linguistas que refletem sobre o ensino de língua portuguesa. Propostas que foram muito bem acolhidas pelos professores e, também, pelos documentos oficiais da época (PCNs).

O que propunham esses pesquisadores? Que o ensino de língua portuguesa fosse assentado na concepção de linguagem como forma de interação, e que, por isso, os alunos passassem a ser vistos como sujeitos de sua própria fala de sua escrita. Com isso, rompia-se com a tradição normativa gramatical, considerada historicamente como a forma correta de ensinar a língua a partir da imitação de modelos de texto escrito consagrados, em sua maioria de obras literárias dos séculos passados.

Para Geraldi, o ensino deveria se desenvolver em quatro eixos didáticos: leitura, oralidade, produção de textos escritos e análise linguística. Esta última um eixo transversal que perpassaria os outros três eixos, constituindo-se em uma prática fundamental para que os alunos aprendam a língua portuguesa refletindo sobre seus diversos usos.

A proposta para o ensino de língua portuguesa no Ensino Fundamental agora apresentada no documento da BNCC, amplia esses eixos quando defende que os objetivos de aprendizagem de Língua Portuguesa sejam organizados em cinco eixos: (1) apropriação do sistema de escrita alfabético/ortográfico e de tecnologias da escrita, (2) oralidade, (3) leitura, (4) escrita e (5) análise linguística, sendo este último transversal aos demais.

No ciclo de alfabetização, ganha destaque a compreensão e o domínio do sistema alfabético/ortográfico e, à medida que se avança na escolaridade, a reflexão linguística sobre os recursos linguísticos que envolvem as práticas de leitura, escrita e oralidade vai se aprofundando, a partir da análise de elementos presentes nos textos, incluindo aspectos relativos à normatividade em diferentes situações formais de uso da língua. Destacam-se, segundo essa perspectiva, a reflexão acerca da materialidade do texto (seleção lexical, recursos morfossintáticos, sinais gráficos, diagramação, dentre outros aspectos) e a apropriação de estratégias de exploração dos elementos constitutivos da textualidade (unidade e progressão temática, articulação entre partes, modos de composição tipológica, intertextualidade e polifonia, argumentatividade, planos enunciativos, relações entre recursos de coesão e coerência dentre outros. (BNCC, p. 38 )

Prossegue o documento afirmando que:

A abordagem de categorias gramaticais (fonética/fonológicas, morfológicas, sintáticas, morfossintáticas) e de convenções da escrita (concordância, regência, ortografia, pontuação, acentuação etc) deve vir a serviço da compreensão oral e escrita e da produção oral e escrita, e não o contrário. (BNCC, p. 39)

Então, será verdade que a proposta da Base Nacional Curricular disponibilizada para discussões é “fraca em conteúdos gramaticais”? Talvez sim, para quem acredita ser a gramática normativa da língua o melhor modelo para as aulas. Ainda bem que, se existem, são raros os professores de língua portuguesa que pensam dessa maneira. Esse modelo tradicional talvez explique a formação de leitores superficiais, que leem, mas não compreendem o que está escrito. Talvez a formação desse leitor superficial seja fruto desse ensino tradicional de língua portuguesa em que a tarefa dos professores era “despejar” conteúdos gramaticais para que os alunos decorassem as regras (e muitas exceções).

A definição de Bases Nacionais Curriculares é uma iniciativa importante. Cabe agora à comunidade ler, discutir, criticar e propor mudanças no documento divulgado. Sem debates não se pode avançar. Na década de 80 escrevi um texto que registra uma conversa parecida sobre a necessidade de se usar ou não o livro gramática. Usar ou não a gramática?

Recife, 12 de outubro de 2015

Referências teóricas

GERALDI, J. W. GERALDI, J. W. (org.). O texto na sala de aula. 4 ed. São Paulo: Ática, 2003.

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado de Letras, 1996.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 1998.

[1] http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/conheca

[2] Mercadante defende mais gramática no currículo nacional de educação. In:  http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/10/1692804-mercadante-defende-mais-gramatica-no-curriculo-nacional-de-educacao.shtml?cmpid=compfb

[3] Vale a pena consultar a entrevista do professor em https://www.escrevendoofuturo.org.br/conteudo/biblioteca/entrevistas/artigo/1370/entrevista-joao-wanderley-geraldi

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